Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Sábado, 31 de Dezembro de 2005

Pessoas da Minha Terra

meianatal05[1].gif Gracinda Araújo, Especiosa de Jesus Alves Monteiro e Silvina de Jesus Barbosa de Lima
Tia Gracinda Araújo, Avó Especiosa de Jesus Alves Monteiro, e Mãe Silvina de Jesus Barbosa Lima, em 1952.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 23:10
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Domingo, 25 de Dezembro de 2005

Costumes de Tempos Idos: Filhoses

bolo08[1].gif  Lareira.gif

   

 

 

 

 

 

    Doce caseiro que povoa a minha adolescência, graças à querida Tia Glória Alves, da Feteira. Calma, sei que a Feteira fica já na freguesia de Paredes de Coura, mas convém lembrar que a tia Glória Alves e o seu marido Gabriel Pereira Rodrigues, o saudoso “tio Gabriel”, viveram na Valinha, lugar de Padornelo, entre 1926 a 1942.

 

    Portanto têm direito a constar aqui. Mas muito me lembra de ver fazer e comer as filhoses que a tia Glória preparava como ninguém, no meu entender de comensal, um verdadeiro manjar dos deuses, naquela sua infinita bondade, e com o sublime toque de sapiência.

 

    Fazia-as a santa velhinha com farinha trigo e leite, e usava uma pedra já escavada pelo uso, que a punha a aquecer ao lume, e que creio que, para além do segredo e do amor que a tia Glória as fazia, era a pedra que lhe dava um gostinho especial e maravilhoso, gosto jamais igualado em qualquer outro pitéu, por ser uma verdadeira preciosidade.

 

    As filhoses servem-se frias e polvilhadas com açúcar e um pouco de canela.

 

    Algumas noções de filologia: filhó vem do termo latino filiola, cujo plural é filhós, embora filhoses se tenha vulgarizado.

 

 

sinonatal17.gif

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 03:56
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2005

CAPELA DE SANTIAGO: História e Curiosidades

igreja.gif  Padornelo, capela de Santiago

    O culto de Santiago em terras de Portugal é certamente bastante antigo, e conta ainda com uma forte corrente imaginária e de suporte do poder político, económico e religioso, que permite a sua sobrevivência e expansão enquanto fenómeno de variada matiz.

 

    Tiago, “o Maior”, filho de Zebedeu e de Salomé, nasceu na Galileia, sendo escolhido para enfileirar como apóstolo de Cristo e um dos seus mais íntimos. A tradição, difícil de documentar e ainda mais custosa de rebater pelos laivos inspirados de lendas e comportamentos colectivos de profundo fervor, alega que foi evangelizador da Península Ibérica.

 

    Na sua vinda à Hispânia entrou pelo Rio Lima para pregar as sagradas escrituras e as novas da redenção, sendo o evangelizador das terras da Galiza, que naquele tempo abarcava ainda o actual território do Minho. Isto, dizem, decorreu ali pelo ano de 35 no nascimento de Jesus Cristo.

 

    Regressado a Jerusalém, seria decapitado; os seus discípulos retiraram o corpo e colocaram-no numa barca, a qual guiada por um anjo, transportou o corpo do apóstolo até a Espanha, onde realizara a sua tarefa missionária e de evangelização.

 

    Após peripécias várias – vamos abreviar para não delongar a história – o seu corpo foi sepultado numa arca funerária construída debaixo dum altar e dentro duma pequena capela. E a memória disso tudo se perdeu, por alguns séculos, até quando em 813 se descobre por milagre – tempos milagrosos – a antiga capela e as campas fúnebres, que deduzem ser de Santiago e dos seus mais directos discípulos.

 

    O Rei D. Afonso II das Astúrias, deslocou-se ao lugar, e desse modo foi o primeiro peregrino e fiel protector da causa do santo, o que muito contribuiu para a glória e fama futura. Por sua vez, logo Santiago surge miraculado a combater os mouros ao lado dos cristãos, aumentando o número de milagres e incentivando a sua devoção, e de todo o lado acodem peregrinos a venerar a sua sepultura e os actos heróicos que praticava como guerreiro mata-mouros.

 

    O terceiro prodígio de veneração sucedeu quando um nobre cavaleiro, caiu ao mar e perante o perigo de morte, evoca o santo nome e a protecção de Santiago, foi salvo de morrer afogado, saindo de água com o corpo recoberto de conchas, elemento agora essencial na veneração e símbolo maior dos peregrinos e romeiros.

 

    Certo é que somente um século após a descoberta do túmulo do apóstolo já toda a Europa o venerava e conhecia uma complexa rede peregrinatória, de molde a ombrear com Roma e Jerusalém, e que atingiu o seu apogeu no século XI, nessa busca da expiação dos pecados que atormentavam o homem dessas eras. De hoje, não sei de semelhante crise existencialista.

 

    Em Portugal, fruto dessa fervorosa devoção, existem 183 freguesias com o orago de Santiago, e não surpreende que delas, 41 sejam em Braga, 29 no Porto e 22 em Viana do Castelo, número que seria maior na Idade Média, porquanto muitas outras freguesias com semelhante patrono já foram extintas.

 

    Em Paredes de Coura sob a sua evocação temos as freguesias de Infesta e Romarigães. Existem e persistem ainda inúmeras capelas privadas e públicas sobre a sua santa égide e evocação, sendo 18 no distrito de Viana do Castelo. Daqui se antevê a grandeza do fenómeno religioso e social e da vigorosa expansão geográfica ao culto divinatório a Santiago.

 

    Entre as capelas dessa evocação no distrito de Viana do Castelo avulta a de Padornelo. Não pelo seu valor esteta e de Arte imperecível, mas pela sua antiguidade e pela particular característica de ser comum com a freguesia de Parada, um caso sério de partilha comunitária, em tempos tão individualistas.

 

    Nesta altura convém saber, mesmo em estimativa, quando foi feita. A resposta, já de pronto, permite afirmar que é certamente muito antiga, talvez do século XII, a mais antiga do nosso concelho. Quanto mais pequena e mais isolada estiver uma ermida, maior será a sua antiguidade probatória.

 

    Ao consultar as Inquirições que o Rei D. Afonso III ordenou em 1258, encontro a seguinte passagem, que livremente transcrevo da parte que nos interessa, quando se fala da freguesia de Santa Marinha de Padornelo: «o Monte de Santo Jacobo, que parte pela real de cova de Martim até às laceiras.... e neste ... monte está uma ermida que chamam Santo Jacobus».

 

    Isto significa que no século XIII, a igrejinha já era tão antiga e estava tão enraizada no conceito popular e geográfico que dera origem a um topónimo, que hoje se perdeu, o Monte de Santiago.

 

    No que concerne a quem seriam os seus edificadores ou patronos, uma antiga tradição aponta os Cavaleiros Templários como os seus fundadores. Nas respostas que o reverendo padre José Bernardino Soares de Castro e Moscoso, abade da igreja paroquial de Santa Marinha de Padornelo, deu a 25 de Abril de 1758, e que estão averbadas no Dicionário Geográfico, declara, fazendo eco duma remota memória acerca da capela de Santiago:

 

«cuja capela existe no monte, e é antiquíssima, e há tradição que fora convento dos templários, não tem património, e se festeja alternadamente todos os anos pelos moradores desta freguesia e da de Parada e dista desta freguesia meio quarto de légua».

 

    Vamos espreitar a resposta do reverendo Pedro da Mota Ferraz, vigário da paroquial igreja de S. Pedro Fins de Parada, o qual acrescenta umas curiosas informações, como seja o facto de designar a capela de forma que considero inédita:

 

«ermida de Santiago de Birtelo, que está nos limites da freguesia de Padornelo e a sua festa se faz no seu dia, um ano a fazem os fregueses de Padornelo, noutro ano os fregueses de Parada e é tradição que houve no seu sítio um convento dos templários, esta ermida está fora do lugar sem vizinhança situada nas faldas do monte chamado de Balhadouro».

 

    Ficámos, assim, a saber dois dados curiosos: o monte que no século XIII era de Santiago, volvidos 500 anos tinha a denominação de Monte de Balhadouro, e que o nome integral da capela seria Santiago de Britelo. Vamos explicar estes dois topónimos. Birtelo, forma popular, que está por Britelo, corresponde à latinização de Bertellus, um antropónimo de origem germânica.

 

    Balhadouro, é topónimo raro e simultaneamente um provincianismo minhoto, que corresponde ao substantivo bailadouro, lugar onde se baila. Não custa acreditar que Britelo era o monge-guerreiro templário que fundou o convento e a capela, num lugar que correspondia a um ermo onde os habitantes das duas povoações faziam grandes folguedos e festejos.

 

    Já sabíamos que a capela de Santiago não está de modo algum associada aos vários itinerários, por onde os romeiros faziam o chamado Caminho de Santiago, e o isolamento absoluto que naqueles tempos por ali havia e que ainda hoje se denota, foi motivo mais que suficiente para levar os cavaleiros da Ordem militar e religiosa do Templo a erigir um mosteiro, do qual nada resta, a não ser a sua memória e tradição ainda presente e pujante nos século XVIII. Os templários radicaram-se em Portugal cerca de 1126. A nossa capela é do mesmo século.

 

    A capela tinha ainda em tempos recentes uma antiga e significativa imagem do seu santo padroeiro. A ameaçar ruína pela acção erosiva dos tempos e em consequente mau estado, foi chamado de Braga um santeiro, especialista que vaticinou remédio certo: concerto.

 

    Mas a confraria não dispunha de verba necessária para tal, e como a relíquia estivesse descamada e abria pequenas fissuras, recomendou ainda o santeiro como sagrado que no santo lenho nunca entrasse prego algum, caso em que seria o fim da imagem se alguém pregasse ali um prego que fosse no intuito de selar as brechas, seria a fatal e definitiva ruína, e que sem essa agressão duraria ainda bastantes decénios para glória vindoura.

 

    Contudo algum curioso investido nas funções de responsável pela capela, cheio de lógica voluntariosa, mas falho de bom-senso, resolveu, então, pintar a imagem para lhe dar outro aspecto, como fazem as velhas senhoras ao pintarem o cabelo: se o objectivo era faze-la ficar mais reluzente, o resultado final foi deveras fatal para a estatueta.

 

    Rapidamente degradou-se, sendo então de sobressalto vendida para Braga. E lá ficámos sem a estátua! Com o dinheiro dali resultante e para o seu lugar veio uma bugiganga de aspecto brilhante e garrido, mas de indiscutível mau gosto estético.

 

    Mas os disparates do tamanho da Sé de Braga não ficaram por aqui. Recentemente uma comissão de festeiros cheios de boa vontade e pouca percepção do mais amplo sentir estético – não a actual, note-se – destroçou e danificou de modo irreversível este monumento medieval, ao destruir a fachada e o conjunto granítico para lhe acrescentar uma arrecadação lateral e avançar a nave. O resultado é mau de mais para ser verdade e extremamente doloroso.

 

    Lendas e historietas abundam por aquelas serranias, porque o lugar é propício a isso. Como a dum pastor que levava por lá o seu gado a pastar e colocava os animais num simples cercado a ameaçar ruína, sob a divina protecção da imagem do santo, visto que o santo homem tinha a chave da capelinha.

 

    Confiante na salvaguarda e na habilidade pastorícia do bem-aventurado, ia tratar do resto da sua vida – porque a vida sempre esteve difícil para os pobres – e à tardinha passava por ali, recolhia a estatueta do santinho ao altar e o seu gado ao estábulo.

 

    O entendimento foi perfeito e durou anos sem queixume ou azedume de todas as partes, humana, animal e santificada. Mas um dia a estátua do santo talvez entediada ou mais meditabunda noutras arrelias que o comum do cidadão desconhece e não entende, não prestou a melhor atenção e o gado, que andava já certamente a espreita duma ocasião de suma distracção do santo, escapuliu-se do cercado e tresmalhou por esses montes.

 

    Quando ao sol-posto o pastor retornou na busca do gado para seu espanto e arrelia deparou-se com a santa imagem, impávida e serena, que nessa ocasião tão mau serviço lhe prestara, segundo a sua furibunda análise. Revoltado e esquecido dos muitos e prestimosos serviços que Santiago lhe prestara – os homens são assim, ingratos e curtos de memória –, e num acesso de fúria, deitou-o para o regato de água cristalina. Mas o santo sobreviveu a esse arrebatamento e ingratidão. Não sobreviveu depois à incúria que lhe destruiu a imagem e danificou a capela.

 

    Para finalizar, umas considerações acerca do nome de Santiago, que é uma particularidade genuína portuguesa. O apóstolo Santiago, ou S. Tiago não existe no calendário ou santoral cristão. Tiago é corruptela do nome do santo, que era Jacob ou Jacobus.

 

   Tudo isto, logicamente, devido à particularidade fonética e ortográfica da letra J. O nome Jacob em algumas línguas passou a ser lido Iacó e depois por força dum fenómeno fonético, a letra C transformou-se em G, donde surgiu Iago. Logo Santo Iago, que pela pronúncia e escrita apressada e pelo fenómeno de aglutinação deu origem a Sant’Iago e Santiago.

 

    A perda do primeiro elemento deu origem a Tiago, que por sua vez para recordar o santo desdobrou-se em S. Tiago. Como o T passava muitas vezes a D, em português transformou-se em Diogo, que sobreviveu a par de Jaime ou ainda Jácomo ou Jácome, em francês deu Jacques, em castelhano temos Jaime e Diego, em inglês James e em italiano Giacomo.

 

    Do primitivo nome do apóstolo temos ainda diversas palavras; jacobeia (peregrinação jacobeia), jacobeu (membro duma seita de fanáticos que existiu em Portugal), jacobice (hipocrisia), jacobina (terreno impróprio para a lavoura), jacobino (membro duma associação revolucionária de exaltados), jacobita (membro duma seita religiosa chefiada pelo bispo Jacob de Edessa), etc.

 

Padornelo, capela de Santiago
publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 17:43
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2005

Casa Típica

passarinho.gif Padornelo, casa típica
Padornelo, casa típica, fotografada em Setembro de 2005.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 17:31
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