Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2006

Costumes de Tempos Idos: O Ritual da Cozedura do Pão

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    A fornada ou acto de cozer pão obedecia a um ritual próprio, hoje um pouco esquecido. A masseira onde ia repousar o pão já amassado era previamente limpa para ficar sem nenhum vestígio das anteriores cozeduras, porque assim o pão podia ressuar.

 

    Na lareira era colocada água nos potes para aquecer. No caso do pão de mistura, fazia-se a boroa na proporção de um alqueire de farinha de milho para um quarto de farinha de centeio.

 

    Trazida a farinha do moinho, a dona da casa benzia-a previamente e nela abre-se um buraco onde se vai deitando aos poucos a água a ferver, e ao mesmo tempo vai-se mexendo, envolvendo a água e a farinha com uma pá de madeira, até atingir determinado contexto e estar toda molhada.

 

    De seguida começa-se a amassar a massa à força de braços, depois de se lhe juntar o fermento, uma porção calculada em função da massa da cozedura.

 

    Depois de bem amassada, termina-se fazendo no final uma cruz desenhada com um dedo ou com a pá, a qual de seguida fica a levedar num canto da masseira, durante cerca de duas horas.

 

    A cruz, um conceito ritualizado, servia «para que levede melhor». Nessa altura, nenhuma peça de vestuário masculino se podia colocar em cima da masseira, pois o pão nunca mais levedava.

 

    De seguida vai-se aquecer o forno, usando caruma de pinheiro, e as brasas são espalhadas no interior do forno para dar uma temperatura igual e constante, usando-se para tal uma vara comprida, chamada o sarriscadouro.

 

    Em muitas casas fazia-se na lareira o bolo do tacho, numa frigideira com azeite, na qual se deita alguma massa em forma de bolos, nos quais se fazem buracos com o dedo mendinho para fritar mais depressa.

 

    Aquecido o forno e já com a massa levedada, varria-se o forno com uma vassoura de giesta ou de codessos, e ainda por vezes era limpo com um novelo de farrapos envolvidos na ponta dum pau, o chamado varredouro.

 

    Depois passava-se para a massa, da qual é retirada uma certa porção que se coloca numa gamela de madeira e sobre ela faz-se uma cruz e deita-se umas pedras de sal, para o diabo não entrar nele, e guarda-se até à próxima cozedura.

 

    Numa grande gamela de madeira de pinho, começa-se a padejar o pão, fazendo-se boroas, as quais soão introduzidas no forno com uma pá redonda de pinho.

 

    Ao deitarem as boroas dentro do forno previamente aquecido, dizia-se as seguintes orações:

 

Deus de acrescente

Dento de forno,

E fora do forno

E a quem te comer.

 

    Cumprido mais este ritual a porta do forno era tapada com bosta fresca e não com barro, porquanto se acredita que deste modo o pão coze melhor, e aguarda-se o tempo que a experiência milenar de então sabia ser necessário para cozer o pão.

 

    Outros acreditam que a bosta, que se via buscar à corte ou pelos caminhos, transmite ao pão um gosto especial e melhor qualidade.

          

    Depois da porta aberta, bate-se três pancadas com a pá em cima do pão, para o acordar, tira-se para fora e colocam-se as boroas em cima da masseira para arrefecer, findo o que guarda-se o pão, que deve durar uma semana.

     

Forno para cozer a boroa.

  

Abertura do forno.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 20:25
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