Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Sábado, 30 de Outubro de 2010

PADRE CASIMIRO: A BOTA COM A PERDIGOTA

    Terminou neste preciso momento o programa Republicanos, Graças a Deus!, dedicado à Questão Religiosa e a algumas figuras da 1.ª República, que ouvi e segui com toda a atenção, na esperança duma grande nomeada em sons de acurada importância.

 

    Embora prefira falar da farinha em vez do farelo, assim de chofre, não posso deixar passar em claro algumas imprecisões, a pender como frutos colhidos à mão em árvore de ciência apressada, algumas delas de repelar o cocuruto a qualquer cidadão eleitor, mesmo que seja de segunda classe!

 

    A começar, obviamente, pela pronúncia dada ao nome da nossa santa terrinha. No dizer daqueles sábios e entendidos em matéria de toponímia, seria Padornélo e não Padornelo, assim mesmo! Fiquei, logo, com pele de galinha, mas bota para a frente, suspenso na esperança de sorver o resto.

 

    Mas o meu espírito não teve descanso ao ouvir que a Feira dos Tojais tinha acabado há vinte anos, quando, na realidade, como aliás é consabido, está extinta desde o início da década de 1960!

 

    Meia légua volvida na narrativa, nova escorregadela, quando se dá a entender que Miguel Dantas – um estranhíssimo conselheiro Dantas – assistiu de braço dado com o abade Casimiro Rodrigues de Sá à proclamação da república em terras de Coura. Certamente que o Conselheiro Miguel Dantas, figura maior da História de Paredes de Coura, deu reviravoltas no túmulo, pois foi monárquico de gema durante toda a vida.

 

    Por altura da queda da Dinastia de Bragança, em 1910, já Miguel Dantas, deputado da Nação, Par do Reino, Conselheiro de Sua Majestade em tempos da Monarquia Constitucional, único regime que conheceu, tinha entregue a alma ao Criador, na medida em que falecera a 8 de Julho de 1905, e não viu, felizmente para ele a implantação da Balbúrdia Sanguinolenta, para poder chorar por largos tempos!

 

    Sobre o padre Casimiro e a sua importante participação na vida republicana e societária de então, tudo foi aflorado pela rama, como cão em vinha vindimada. Parecia até que o abade de Padornelo, saltando em terra em viagem de turismo a França, trouxe de lá dois capacetes, vejam só, pelo prisma da imaginação.

 

    Sobre o resto, nada, pouco mais que nada, nem vaporosas intenções, ele que foi herói de muitas batalhas, grão fértil de inúmeros ofícios e das mais sólidas virtudes! Não foi por aí que se conseguiu exumar o pó à sua personagem histórica. E a parte positiva, dirão? Foi apenas mais uma jornada em prole da nossa terra, a colocar-nos no mapa.

 

    Já agora, em nome do rigor histórico e da precisão na História, convém falar claro. O dr. António Oliveira Salazar desistiu da sua candidatura a deputado a favor do padre dr. Clemente Ramos nas eleições de Julho de 1915, outra grande figura da história courense, inteligência viva e brilhante como orador sagrado, professor de Teologia e musicólogo. Valha a verdade.

 

    O resto do programa, já não dizia respeito à nossa terra, mas também divergiu e muito da premissa original, que a ciência do probabilismo não descortina o critério, embora saiba que o tema era mais denso que os montes Hermínios.

 

    Foi dificílimo entender o fio condutor e ver o que a Congregação Dominicana de Benfica, a Igreja de Campolide e o Convento dos Cardais tinham com o tema da república e dos republicanos, a não ser de través. Mais parecia tratar-se da Igreja na República, virando o santo contra a esmola, num chorrilho de lamúrias e missa, em que até o tecto ameaçava ruína por via da instauração do regime republicano cem anos antes! Para um forçado dos livros, não bateu a bota com a perdigota!

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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 23:49
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

NATAL TRADICIONAL NO ALTO MINHO

Como Era Antigamente

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

                                                                           

    O Natal começava quando os mais velhos do agregado familiar incumbiam a pequenada, de olho fino, da ida à bouça na procura de matéria-prima a fim de ser construído o presépio.

 Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                                                                          

    Eis o ansiado pontapé de saída para uma áurea festiva. Trazia-se musgo às postas, pedrinhas talhadas a foice, pinhas ao sacolejo e um pinheirinho, ou ramada de pinheiro, que a época não era soberba de desperdícios e consumos de espavento.

                                                                               

    Num canto predefinido da casa, construía-se uma autêntica aldeia em miniatura, povoada de figurinhas, a gruta, o menino conchegado nas palhinhas, debaixo do bafo do burro e da vaca ramalhuda.

                                                                                             

    Um empreendimento de monta e de quantas criaturas cabiam no imaginário que abraçava o Mundo, onde não faltavam os terríveis herodes da matança, os pastores e os Reis Magos a peregrinar pelo nosso presépio adentro, tal como nos trilhos de Ceca e Meca.

                                                                      

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

 Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                 

    Na mesa, a matriarca colocava a luzidia toalha de linho, uma preciosidade herdada dos avoengos, de par com a melhor loiça e talheres de “ver a Deus” usados quando o rei fazia anos e nas ocasiões especiais, o resto do tempo sempre aferrolhados como um tesouro moiro nas profundezas da arca.

                                                                                                     

    Enfeites de sala, composto por ramos de azevinho davam um ar folião e convidativo à austera habitação. Venha o resto, a comidinha, que era de supina importância, e capaz de saciar a fome de lobo esfaimado.

                                                                                                                                            

    O bacalhau “do alto” tinha – e ainda tem – o estatuto de rei e presença insubstituível na Consoada, acompanhado de batatas e couve penca curtida da geada. Devidamente banhado de azeite de estalo para nele molhar o pão, manjar dos deuses, como se fazia antes da Europa nos afiançar que era um tudo-nada anti-higiénico e boçal.

                                                                                                              

    Nas casas de maior basteza, onde a folgança permitia fazer de boi tendo tão-só pata de carneiro, havia o segundo prato, o polvo seco cozido, ou arroz de polvo como confeccionava a minha santa mãezinha – a avó, como dizíamos antigamente no Minho –, comprado na feira de Paredes de Coura.

                                                                                                                         

    Isto, substancialmente bem regado com o tradicional “Vinho Quente”, uma saborosa mistela de verde tinto fervido com gemas, melaço, canela e, nas casas mais abastadas, apaparicado com uma porção de “vinho fino” – como naquelas eras se chamava ao vinho do Porto ou Moscatel.

                                                                                           

    De fazer cantar os anjos lá na corte celestial, para os mais velhos, claro, que a canalha pequena bebia pirolitos.

                                                                                               

    Compunha a mesa o arroz-doce e as rabanadas minhotas, umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas, ou as simples fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar.

                                                                             

    E demais iguarias dispersas a preceito, figos, passas, pinhões e nozes. Pitéus dignos dum faraó, comparada com a pobreza franciscana e frugalidade do restante ano, mesmo para os lavradores abastados. Corria o vinho do melhor pipo, de pintar as malgas com as mais vivas cores da folia e comes e bebes de príncipe.

                                               

    Nas horas mortas que antecediam a Missa do Galo, à volta da lareira onde o “Canhoto de Natal” tinha a sacrossanta missão de arder toda a noite, brincava-se seriamente ao “rapa-tira-deixa e põe”, um jogo de pinhões, enquanto os adultos jogavam às cartas, ou recordavam os familiares e historietas de levantar os cabelos.

Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                    

    A função de escolher o madeiro de carvalho para a lareira cabia ao pai e filho mais velho. Diziam as minhas santas avós, naquela sabedoria popular e milenar, que o fumo e as cinzas do “Canhoto de Natal” tinham a utilidade miraculosa de afastar as faíscas e trovoadas, um pára-raios campestre, além de propriedades terapêuticas aplicadas em certas doenças, mas para tal ocorrer deveria arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

                                                                                     

    O poviléu atravessava a aldeia em direitura à igreja matriz para ouvir a vigília jubilosa da meia-noite e beijar a imagem do Deus Menino, quebrantando a escuridão cerrada dos caminhos com umas lumieiras feitas de palhas ou lampiões de azeite que abriam uma trémula claridade na treva de breu.

                                                                                     

    A mesa, com os seus restos alimentares, não podia ser levantada sob pretexto algum, repousava farta toda a noite para alimentar e aquecer as alminhas, que no entender douto dos avós, ali vinham saciar-se a contracompasso, enquanto a família curava o sono.

                                                                              

    Na ressaca da festança, manhã seguinte, a criançada acordava com as galinhas, mal rompia a madrugada, para saltear a lareira onde jaziam as prendas, modestas se comparadas com o pretensiosismo actual, porém inegavelmente mais valiosas naquela época de privação e vacas magríssimas, num tempo em que o Pai Natal não entrava pelas chaminés do Minho e os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus.

                                                                                      

    No pinheiro, a fazer crescer baba na boca como água-benta, alguns chocolates – do chocolate preto de Viana – mercados na feira de Padornelo e pendurados por cordel faziam esbugalhar o desejo para além do limite da gula.

                                                                               

    Ao almoço do dia 25 de Dezembro – que naquele torrão de tranquilidade se chamava então jantar –, comia-se a “roupa velha”, uma delícia que ainda hoje adoro, feita com as sobras da lauta consoada.

                                                                                                             

    Para compor o prato principal da janta, a Ceia de Natal, matava-se o melhor galo da capoeira, acompanhado de arroz de pica no chão e chouriço de carne, um manjar que murmurava pelo mais cândido estômago.

                                                               

    Apesar da ventania de mudança que varre o limbo da sociedade, ainda perduram algumas destas resistentes tradições vindas dos confins da memória dos tempos.

                                        

    Desapareceu por completo a Missa do Galo, o Menino Jesus foi substituído pelo amorfo Pai Natal (parece que vem aí uma sexuada Mãe Natal...), o presépio em estado de paralisia peleja com a Árvore de Natal, o Vinho Quente descaiu no esquecimento do paladar, o Canhoto de Natal foi trocado pelos aquecedores, e até as próprias prendas são entregues na noite de 24 de Dezembro, à revelia dos preceitos do uso antigo.

                                             

    Foram introduzidos o bolo-rei e mais gulodices, o horrendo peru e outras modernices importadas a mata-cavalos e contranatura.

Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                 

    Agora comprámos num hipermercado um falso conceito de felicidade às toneladas ao consumir em quantidades astronómicas todo o género de inutilidades.

                                                           

    O Natal no Minho rural de antanho, festim mais comedido e frugal, embora fosse uma festa por excelência, não tinha a euforia consumista e pantagruélica de agora.

                                                                                             

    Mas era, acima de tudo, um tempo alumiado de felicidade divinal, onde a alma coexistia com o estômago, numa ternura florescente. E que saudades tenho desse tempo e dessa ventura...

                                                                                                

    Mas desta ou daquela maneira, continua a ser a festa de harmonia. A Consoada e Ceia de Natal tinham algo de mítico, sublinhado pelo simbolismo duma sentida paz caseira. Marcava o epicentro da festa familiar, na plenitude das suas tradições e manifestação intensa de alegria íntima.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:28
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

A PROPÓSITO DA GRAFIA E DA PLACA ECCE HOMO

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

Folografia de Edurado Daniel Cerqueira                                    

    «Eis o homem», célebre frase que Pôncios Pilatos pronunciou ao apresentar Cristo perante os judeus, após a flagelação. E depois lavou as mãos, claro.

                 

    Tornou-se tema constante na devoção cristã e frequentemente representada na iconografia a partir do século XV, vulgarmente representado açoitado, atado, coroado de espinhos, com um manto de púrpura e, a servir de ceptro, empunha uma cana.

                

    Notável é o quadro vulgarmente chamado Ecce Homo da Escola Portuguesa do século XV, depositado no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

                   

    Vamos, para já, tratar de duas questões, a primeira relacionada com a sua correcta dicção, mais delicada, na medida em que subsistem pelo menos três hipóteses fonéticas.

                        

    A pronúncia eclesiástica, usada pelo clero, mais próxima da língua italiana, para quem “ecce” soa “etche”.

 

    A fala tradicional, usada pelos linguistas que a partir do pressuposto daquilo que se pensa ter sido a sua pronúncia nas línguas românicas na Idade Média, para quem “ecce” lê-se precisamente como se escreve, isto é, com “C”.

 

    Outros estudiosos defendem, na chamada prolação restaurada, que no latim clássico de há 2000 anos, a consoante de “ecce”, de acordo com o seu valor, seria pronunciada como gutural, com o som “Q”.

 

    O segundo problema diz respeito à grafia, onde me parece que durante séculos não houve lugar a qualquer dúvida. Mas recentemente, em jornais e placas de toponímia, surgiu a moda absurda de escrevinhar ECCE-HOMO (com hífen), deslize que se não for atalhado a tempo, ficará para o futuro como verdade absoluta.

 

    Mas não é, porquanto tal ortografia é literalmente abusiva e incorrecção malfeita. Em «Ecce Homo» temos uma locução latina, e no latim clássico ou medieval não existia o hífen, logo a palavra escreve-se separada.

 

    Se o caro leitor se dá por satisfeito e provado, pode ir à sua vidinha. Mas, se ao invés, tem ares de céptico S. Tomé, aqui vão umas migalhas de abonação colhidas nas melhores cepas dos linguistas.

            

    Venha comigo abrir a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, da década de 1950, para consultar o verbete ECCE HOMO, no volume IX, p. 388.

                     

    O mesmo, sempre Ecce Homo, na “Lexicoteca: Moderna Enciclopédia Universal”, vol. VII, 1985, p. 84. Vou à estante e trago também o “Dicionário da Língua Portuguesa”, 5.ª edição, de 1976, no suplemento das “Palavras e Locuções Estrangeiras”, folheamos a p. 1534, donde cito: «Ecce homo, eis o homem. Palavras de Pilatos ao apresentar Cristo coroado de espinhos».

 

    Pelo canto do olho, avisto alguém a retorcer o nariz. Talvez seja da gripe das galinhas ou algum martirizado na dúvida imanente de Nossa Senhora do Sameiro, pelo sim pelo não, socorro-me de exemplos mais recentes.

 

    Vou a Braga buscar o programa da “Quaresma e Solenidades da Semana Santa de 2008”, adonde consta a Procissão do Senhor Ecce Homo que se realizou a 20 de Março deste ano (http://www.semanasantabraga.com/content.asp?startAt=4&categoryID=1409).

 

    Apresento mais uma prova irrefutável, o parecer científico da erudita Sociedade da Língua Portuguesa, da qual sou associado, e a resposta que em 20 de Julho de 2007 me deu o dr. Gonçalo Neves, tradutor, especialista em interlinguística e lexicógrafo:

 

    «Não há nada que justifique esta alteração ortográfica na placa toponímica da capela de Padornelo. A grafia correcta é Ecce homo (como está na Vulgata) ou Ecce Homo (pelo respeito que infunde a figura em questão), mas sempre sem hífen.

    Julgo que este erro pode ter que ver com o facto de eis, vocábulo lusitano que corresponde a ecce, se grafar com hífen, quando antecede os chamados pronomes átonos: «eis-nos», «ei-los», «ei-la», «eis-me». Seja como for, em latim é sempre sem hífen, mesmo quando o respectivo advérbio antecede essas formas pronominais: ecce me.

    Refira-se por último, para os menos avisados, que ecce homo (que se pode traduzir literalmente por «eis o homem» e livremente por «aqui está ele») são as palavras com que Pôncio Pilatos (São João, 19, 5, na tradução latina da Vulgata) mostrou aos judeus Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Empregam-se, por vezes de forma jocosa, para anunciar a chegada de alguém, sobretudo quando se trata de personagem (pretensamente) importante.

 

    Não fica sobejo de dúvida: Ecce-Homo (com hífen) é erro grosseiro, pois sendo uma expressão latina, manda a regra que se deve escrever Ecce Homo, assim, sem hífen.

 

    Como errare humanum est, resta a necessária e urgentíssima correcção, a bem deste adorado rincão, o nosso paraíso terrenho.

 

    A placa que está errada e induz ao engano, como se viu, deve ser retirada de pronto e substituída por outra, para que seja reposta a verdade gramatical. Não podemos lavar as mãos como fez o procurador Pilatos e fingir que não é connosco.

 

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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 17:38
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

A PROPÓSITO DA GRAFIA E DA PLACA ECCE HOMO

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    «Eis o homem», célebre frase que Pôncios Pilatos pronunciou ao apresentar Cristo perante os judeus, após a flagelação. E depois lavou as mãos, claro.

 

    Tornou-se tema constante na devoção cristã e frequentemente representada na iconografia a partir do século XV, vulgarmente representado açoitado, atado, coroado de espinhos, com um manto de púrpura e, a servir de ceptro, empunha uma cana. Notável é o quadro vulgarmente chamado Ecce Homo da Escola Portuguesa do século XV, depositado no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

 

    Vamos, para já, tratar de duas questões, a primeira relacionada com a sua correcta dicção, mais delicada, na medida em que subsistem pelo menos três hipóteses fonéticas. A pronúncia eclesiástica, usada pelo clero, mais próxima da língua italiana, para quem “ecce” soa “etche”.

 

    A fala tradicional, usada pelos linguistas que a partir do pressuposto daquilo que se pensa ter sido a sua pronúncia nas línguas românicas na Idade Média, para quem “ecce” lê-se precisamente como se escreve, isto é, com “C”.

 

    Outros estudiosos defendem, na chamada prolação restaurada, que no latim clássico de há 2000 anos, a consoante de “ecce”, de acordo com o seu valor, seria pronunciada como gutural, com o som “Q”.

 

    O segundo problema diz respeito à grafia, onde me parece que durante séculos não houve lugar a qualquer dúvida. Mas recentemente, em jornais e placas de toponímia, surgiu a moda absurda de escrevinhar ECCE-HOMO (com hífen), deslize que se não for atalhado a tempo, ficará para o futuro como verdade absoluta.

 

    Mas não é, porquanto tal ortografia é literalmente abusiva e incorrecção malfeita. Em «Ecce Homo» temos uma locução latina, e no latim clássico ou medieval não existia o hífen, logo a palavra escreve-se separada.

 

    Se o caro leitor se dá por satisfeito e provado, pode ir à sua vidinha. Mas, se ao invés, tem ares de céptico S. Tomé, aqui vão umas migalhas de abonação colhidas nas melhores cepas dos linguistas. Venha comigo abrir a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, da década de 1950, para consultar o verbete ECCE HOMO, no volume IX, p. 388.

 

    O mesmo, sempre Ecce Homo, na “Lexicoteca: Moderna Enciclopédia Universal”, vol. VII, 1985, p. 84. Vou à estante e trago também o “Dicionário da Língua Portuguesa”, 5.ª edição, de 1976, no suplemento das “Palavras e Locuções Estrangeiras”, folheamos a p. 1534, donde cito: «Ecce homo, eis o homem. Palavras de Pilatos ao apresentar Cristo coroado de espinhos».

 

    Pelo canto do olho, avisto alguém a retorcer o nariz. Talvez seja da gripe das galinhas ou algum martirizado na dúvida imanente de Nossa Senhora do Sameiro, pelo sim pelo não, socorro-me de exemplos mais recentes.

 

    Vou a Braga buscar o programa da “Quaresma e Solenidades da Semana Santa de 2008”, adonde consta a Procissão do Senhor Ecce Homo que se realizou a 20 de Março deste ano (http://www.semanasantabraga.com/content.asp?startAt=4&categoryID=1409).

 

    Apresento mais uma prova irrefutável, o parecer científico da erudita Sociedade da Língua Portuguesa, da qual sou associado, e a resposta que em 20 de Julho de 2007 me deu o dr. Gonçalo Neves, tradutor, especialista em interlinguística e lexicógrafo:

 

    «Não há nada que justifique esta alteração ortográfica na placa toponímica da capela de Padornelo. A grafia correcta é Ecce homo (como está na Vulgata) ou Ecce Homo (pelo respeito que infunde a figura em questão), mas sempre sem hífen.

    Julgo que este erro pode ter que ver com o facto de eis, vocábulo lusitano que corresponde a ecce, se grafar com hífen, quando antecede os chamados pronomes átonos: «eis-nos», «ei-los», «ei-la», «eis-me». Seja como for, em latim é sempre sem hífen, mesmo quando o respectivo advérbio antecede essas formas pronominais: ecce me.

    Refira-se por último, para os menos avisados, que ecce homo (que se pode traduzir literalmente por «eis o homem» e livremente por «aqui está ele») são as palavras com que Pôncio Pilatos (São João, 19, 5, na tradução latina da Vulgata) mostrou aos judeus Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Empregam-se, por vezes de forma jocosa, para anunciar a chegada de alguém, sobretudo quando se trata de personagem (pretensamente) importante.

 

    Não fica sobejo de dúvida: Ecce-Homo (com hífen) é erro grosseiro, pois sendo uma expressão latina, manda a regra que se deve escrever Ecce Homo, assim, sem hífen. Como errare humanum est, resta a necessária e urgentíssima correcção, a bem deste adorado rincão, o nosso paraíso terrenho.

 

    A placa que está errada e induz ao engano, como se viu, deve ser retirada de pronto e substituída por outra, para que seja reposta a verdade gramatical. Não podemos lavar as mãos como fez o procurador Pilatos e fingir que não é connosco.

 

Fotografia: gentileza de Eduardo Daniel Cerqueira.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 18:16
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

Um Museu da Educação Para Paredes de Coura

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Com a recente inauguração do edifício da Escola do 1.º Ciclo de Paredes de Coura e o conse­quente encerramento das antigas escolas primárias espalhadas pelas freguesias, o município ficou detentor dum património para o qual se perspectivam diversas alternativas de utilização, todas elas certamente interessantes.

 

    Umas das soluções para a ocupação desse espaço seria a instalação dum museu escolar e da educação, e para o qual e devido à sua situação geográfica de proximidade com a sede de conce­lho, o sítio ideal seria na antiga escola dos Tojais, lugar da freguesia de Padornelo. Ou em outra freguesia rural, como medida descentralizadora.

 

    Esse museu serviria para a recolha, conservação e museolização de todo o acervo patrimonial dos séculos XIX e XX. E teríamos tanto, tanto para expor. A quantidade e qualidade de material a tratar e exibir seria de uma suprema mais valia para o concelho. As cantigas infantis, lengalengas, os livros e materiais didácticos da nossa infância e dos nossos filhos, pais e avós, as carteiras e cadeiras por onde passaram sucessivas gerações, as ardósias e até as famigeradas palmatórias.

 

    Os cadernos de apontamentos de alguns alunos, as sacolas de serapilheira e pastas para trans­portar os livros, as lancheiras de lata onde era colocada a merenda, antes desta se passar a chamar lanche. Enfim todo uma série infindável de documentos e de património que sendo de todos nós, são na realidade pedaços da nossa infância e juventude.

 

    Para este interessante espaço museológico seria carreado todo o material legislativo dos sécu­los XIX e XX, livros de matrículas de alunos do concelho, programas do magistério primário. Todos os documentos e materiais passíveis de interessar a uma iniciativa desta natureza, seriam recuperados e conservados para memória futura.

 

    O museu em si conteria núcleos da escola pública da 1.ª Republica, do Estado Novo, e depois do 25 de Abril, ilustrados com fotografias e biografias de pedagogos courenses ou que trabalharam entre nós. Teríamos, assim, pelos menos três núcleos de natureza diversa, a retratar cada época.

 

    Nesses núcleos – por exemplo o do Estado Novo –, uma sala de aulas seria reproduzida na integra, e recheada com a secretária da professora, as carteiras e cadeiras dos alunos, o quadro negro e os paus de giz, o ponteiro, os manuais, as réguas de madeira, as ardósias, as palmatórias ao lado da longa cana, as famosas “orelhas de burro” usadas para enfeitar a cabeças dos premia­dos pelo azedume do professor ou dos pouco bafejados.

 

    Os castigos e maltratos a que as crianças estavam sujeitas, faziam parte do conceito de escola e educação de então. E ainda as canetas de aparo, os tinteiros, as paredes repletas de mapas geográ­ficos, e toda a simbologia que então enquadrava a escola, tais como a bandeira, o crucifixo, os retratos, em­bora estas coisas me tragam algum arrepio, como elementos figurativos da História e da época seriam im­prescindíveis.

 

    Para complementar, o museu seria enriquecido com um espaço lúdico com brinquedos da época, pois brincar também é aprender. Um espaço misto com cafetaria e livraria para venda de material diverso, e outro espaço destinado a exposições temporárias. E a ligação à escola e à comunidade com uma série de actividades programadas.

 

    Sem sombra de dúvida, um factor importante para a promoção e desenvolvimento do espaço rural. Para além disso seria na realidade um interessante projecto de dinamização cultural e pedagógico em conexão com a escola de hoje. Uma romaria de saudade de avós, pais, filhos e netos. E para Paredes de Coura um indiscutível investimento de sobeja categoria.

 

NOTA: este artigo foi escrito em Dezembro de 2004.

 Escola primária de Padornelo

Antiga escola primária de Padornelo, em Dezembro de 2005.

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publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 03:03
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