Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

UM COSTUME ANTIGO DO MINHO: Casamento e Choro

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

O casamento e a mortalha no céu se talha.

 

    No século XVI, em tempo do Rei Dom João III, existia ainda pujante um antiquíssimo costume sobrevindo dos fundos das eras dos netos de Noé, hoje completamente abandonado e ignorado. No dia do noivado oficial, as mulheres da parentela e da vizinhança organizavam uma fiada a que chamavam serão da noiva. Todas juntas fiavam a noite inteira, desde o sol-pôr até raiar a luz da matina, contribuindo numa palhetada para fazer o enxoval e bragal da prometida, a bichanar segredos de alcova, o diafragma a arfar de tanto espírito-santo-de-orelha e riso alarve.

 

Cravo vermelho ao peito

É sinal de casamento;

Menina recolha o cravo,

Pra casar inda tem tempo.

 

    Por sua vez a moçoila casadoira, na manhã do seu casamento, recusava terminantemente abandonar a habitação paterna, resistindo com contumácia ao máximo, aqui d'el-rei, «daqui não saio, daqui ninguém me tira». Depois de determinada resistência, choradeira infinita e partes-gagas da noiva, a fazer finca-pé, os irmãos, primos e tais e tais da parentela da contraente botavam-lhe a gadanha e acabavam por arrastá-la à viva força porta fora da casa paterna, por entre alta grita da futura esposa e pranto da mãe, ai-jesus.

 

Minha mãe, o que é casar? Sofrer, parir e fiar!

 

    Outrossim, desta forma a maridada amostrava o quanto amava os pais. Mas acima de tudo demonstrava que tão-somente saía de casa a toque de caixa, contra a sua vontade e forçada por força bruta de braços másculos. Após este escarcéu todo, enfim rendida, a nubente trémula das pernas ajoelhava e beijava a mão do pai.

 

Minha mãe case-me cedo,

Enquanto sou rapariga;

O milho sachado tarde

Não dá palha nem espiga.

 

    Organizavam de seguida uma escolta de janízaros com a famelga e dois compadres a custodiar a renitente moçoila na trilha do altar, trupe que trupe, rompiam a tanger todos os campanários. A abrir caminho da comitiva nupcial seguia um rapazola, irmão da pretendida, que transportava a roca e o fuso, símbolo do trabalho doméstico e das canseiras que ela desditosa carregava para a sua nova casa, carrego mais pesado que os montes Hermínios.

 

Em casamento e mortório, sempre há falatório.

 

    Defronte do templo, no exterior (in facie ecclesiae, no sentido literal), procedia-se a uma série de ritos tradicionais de esponsais em presença das testemunhas, tais como a troca de consentimento mútuo entre os esposos, a assinatura e a entrega do dote. A noiva era então entregue pelos seus pais ao noivo. O sacerdote passava o anel ao noivo que, por sua vez, introduzia a aliança no dedo anelar da mão enluvada da desposada, símbolo da pureza, enquanto o futuro esposo lhe dava uma moeda de ouro, dizendo ao mesmo tempo: «com este anel te esposo, com este ouro te honro e com este dote te doto».

 

Minha mãe vou-me casar,

Sou filha de matrimónio;

Já tenho as unhas rompidas

De arranhar este demónio!

 

    Entrementes, a meio da missa de casamento, os nubentes deitavam-se acamados no chão, ao comprido e eram tapados com um lençol, acto que expressava a união carnal do casal[1]. Durante duzentos anos entre os séculos XVI e XVIII, o desposório era celebrado à porta da igreja, em especial ao sábado e sabemos de fonte segura que se atirava trigo para cima dos recém-casados. E claro, como é óbvio, não existia qualquer tipo de vestido branco de noiva, porquanto os noivos vestiam tão-somente as suas melhores roupas, em geral azuis ou vermelhas, e as mulheres, acatando uma antiga tradição milenar, levavam um véu na cabeça.

 

Antes que te cases vê o que fazes!

 

    Para assinalar a boda, nesta altura da centúria de quinhentos, o padrinho e o marido atiravam ao ar uma mancheia de confeitos, que o rapazio lambão e monco de palmo disputava à rebatinha, em porfia de muitos encontrões e força de unha. Feito o casório e responso matrimonial, marido, mulher e o respectivo préstito retrocediam ao lar de volta da igreja por atalho diverso, pois é de mau agoiro trilhar o trajecto anterior, rescendia a bafo de belzebu. Nessa tarde do enlace, fazia-se um baile de terreiro de quatro assobios, meneavam o saricoté como o santo rei David a bailar diante da Arca da Aliança e, avessos a pompas e fidalguias, engoliam uma janta melhorada.

 

Enquanto fui solteirinha

Dormia sem ter cuidado;

Agora que sou casada

Passo noites no sobrado.

 

    Aqui vai, ipsis verbis em letra macarrónica da centúria de oitocentos, o artigo que narra este velhíssimo costume, ora varrido pela lima do tempo para o limbo do esquecimento e que se praticava ainda em Ponte de Lima e em Coura, altar da natureza, no século XVII:

«Usos Antigos nos Casamentos de Portugal

    Nos casamentos usavão as antigas mulheres portuguezas, principalmente as da provincia do Minho, não sahirem da casa de seus paes para a de seus esposos, senão como violentadas: os seus parentes fazião a ceremonia de puxarem por ella para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meio de dois padrinhos, adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheia de linho, e o fuso.

    No tempo de João de Barros, que floreceo pelos annos de 1549, ainda permanecia quasi geral este costume; porque a noiva, quando sahia da casa de seus pais, diz elle na discripção do Minho, chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua companhia contra vontade.

    Tambem costumavão, quando sabião que alguma moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas e parentas della, e fiarem todas á porfia huma noite até pela manhãa, a que chamavão o serão da noiva, e assim chegavão a fiar muitas varas de panno para seu enxoval. Desta sorte ajudavão huns aos outros para o dote das filhas, e no dia da boda fizião grandes festas e banquetes».

Usos Antigos nos Casamentos de Portugal

    Nos casamentos usavão as antigas mulheres portuguezas, principalmente as da provincia do Minho, não sahirem da casa de seus paes para a de seus esposos, senão como violentadas: os seus parentes fazião a ceremonia de puxarem por ella para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meio de dois padrinhos, adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheia de linho, e o fuso.

    No tempo de João de Barros, que floreceo pelos annos de 1549, ainda permanecia quasi geral este costume; porque a noiva, quando sahia da casa de seus pais, diz elle na discripção do Minho, chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua companhia contra vontade.

    Tambem costumavão, quando sabião que alguma moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas e parentas della, e fiarem todas á porfia huma noite até pela manhãa, a que chamavão o serão da noiva, e assim chegavão a fiar muitas varas de panno para seu enxoval. Desta sorte ajudavão huns aos outros para o dote das filhas, e no dia da boda fizião grandes festas e banquetes[2].

 

Depois do casamento vem o arrependimento.

 

Costumes do Minho namorados.jpeg

 

[1] A.H. de Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa: Aspectos da Vida Quotidiana, 1.ª edição, Lisboa, Sá da Costa, 1964, p. 129.

[2] O ARCHIVO POPULAR: SEMANARIO PINTORESCO, volume III, n.º 42, de 19 de Outubro de 1839, p. 334.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2015

PADRE-NOSSO DO MOLEIRO

    Antiga versão satírica do Padre-Nosso do Moleiro, documentada no Norte de Portugal desde o século XIX, que pretende mostrar a tradição segundo a qual os moleiros exageravam, muitas vezes, na quantia de farinha que tiravam como pagamento da maquia pelo seu trabalho.

 

Venhas embora meu saco,

Três maquias t'eu rapo;

Uma por te trazer, outra por moer

E outra para o meu burro comer.

 

Vem a minha mulher

E tira o que ela quer;

Vem a minha Maria

E tira a sua maquia.

 

Vem o meu criado:

Este pão ainda não está maquiado,

E, se não fora por me envergonhar,

Até o baraço te havia de maquiar.

 

 

Padre-Nosso do Moleiro (outra versão da Beira Alta)

 

Tira-te para aí, taleigo

Que me pareces um saco

Um te tiro, outro te rapo

Outro para o burro, porque está fraco

Tira-te daí, para esse canto

Senão, ainda te tiro, outro tanto

E se não tivesse contas a dar

Nem o atilho havia de entregar.

Moleiro do Norte de Portugal.jpg

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Domingo, 8 de Abril de 2012

A PÁSCOA NO ALTO MINHO: Antigos Usos e Costumes

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    A Páscoa representa para os cristãos a festa da Ressurreição de Jesus Cristo, embora já se encontre no Antigo Testamento diversas alusões aos ritos da Páscoa hebraica. Assim, a Igreja Católica recebeu a solenidade pascal a partir do judaísmo, dando-lhe, todavia, o significado da morte e ressurreição de Cristo.

 

 

    Durante os séculos estalaram diversas querelas entre a cristandade no que concerne à celebração da Páscoa, tanto na liturgia como nos cálculos astronómicos para estabelecer a data em questão. Por fim o I Concílio de Niceia, reunido como feitoria celestial, estabelece no ano de 325 a celebração no primeiro domingo depois da primeira lua cheia da Primavera, dentro do espaço temporal entre 22 de Março e 25 de Abril.

 

Quinta-feira de Endoenças,

Sexta-feira de Paixão,

Sábado de Aleluia,

Domingo da Ressurreição.

 

    A Quaresma é um tempo ritual de preparação para a Páscoa, cheio de jejum, abstinência e de grande tristeza protocolar. Nesse dorido ambiente e de penitência rigorosa, sentido em clima de desmedida religiosidade, as mulheres vestiam-se todas de negro e as moçoilas para arrefecer os ardores, por entre conselhos de prudência, evitavam as roupetas garridas, a fazer dó às mulas lazarentas.

 

    Os cânticos durante os trabalhos agrícolas eram liminarmente eliminados e os homens não podiam sequer assobiar, dizer palavrões ou contar larachas, cortando rente qualquer manifestação de blasfémia. Entrementes entoavam-se tão-somente salmos religiosos, exortações e lamentos. Tudo conforme a cartilha de orar, soluçar, ares de poucos amigos e setes olhos a mirar o casoto dos outros.

 

    Nas igrejas e capelas não se colocavam flores nos altares e os santos eram ocultados com tecidos roxos ou pretos por mor dos tormentos que Nosso Senhor padeceu. Como os sinos não podiam atroar os ares devido ao período defeso e respeito pelo luto, em algumas terras usavam umas matracas a convocar os fiéis para a liturgia, rituais e ofícios divinos.

 

Páscoas passadas, muitas criadas.

 

    Era, essencialmente, um tempo de silêncio e recolhimento colectivo, pois cantar, assobiar ou qualquer manifestação de alegria exterior assumia contornos de mortiço pecadilho. Para mostrar que a coisa era séria, punha-se uma pedra pesada em cima da salgadeira, encerrando-a até ao fim do período pascoal, pois era absolutamente proibido comer carnes e gorduras. Na sexta-feira não se podia fiar, coser, lavar ou estender roupa ou cozer pão, devido a uma série de catástrofes medonhas que ameaçava os desprevenidos ou mais ousados.

 

    Uma antiquíssima tradição da cultural popular, agora completamente erradicada a partir da década de cinquenta da centúria passada, consistia no ritual da Encomendação das Almas ou Botar das Alminhas, como se designava noutros tempos em todo Alto Minho. Um leigo, o botador das almas, subia a um ponto alto e central e, logo ao primeiro badalar das Trindades, enquanto dobravam os sinos, começava a rezar uma ladainha em tom melancólico, concluindo com um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pela salvação das alminhas do Purgatório.

 

Alerta, alerta, a bida é curta e a morte é certa.

 

 

    A liturgia envolvia a formalidade de dizer a doutrina, pois nessa ocasião todos os adolescentes e solteiros deviam comparecer perante o abade a fim de mostrarem que sabiam o catecismo de cor e salteado e todos os dogmas da doutrina cristã na ponta da língua. Ocorria então o cerimonial da desobriga para os adultos, confissão quaresmal e comunhão em doses maciças, a fim de purificar a alma da face tétrica dos pecados, perjúrios, latrocínio, intrigas, ódios e pragas proferidas boca fora em horas do Demo. Todos com ar pesaroso de lorpas condenados ao patíbulo, cabeça descoberta e barrete surrado nas mãos, sempre pela salvação da alma e a fugir da forquilha do mafarrico.

 

    Na noite de Quinta-Feira Santa fazia-se a Procissão dos Fogaréus ou Procissão do Senhor Ecce Homo, pelo menos desde o século XVII. Uma chusma de poviléu cumpria magistralmente papéis diversos, num cortejo com figuras alegóricas da Última Ceia, julgamento de Jesus, cantochão, farricocos, matracas, ruge-ruge, vestes de penitência, pés descalços, capuzes balandraus, cordas à cintura e os tais fogaréus, umas taças com pinhas a arder ou lanternas de fogo. Nalgumas localidades realizava-se na Sexta-Feira Santa a Procissão do Enterro do Senhor, perante uma multidão prosternada.

 

   Por sua vez, em Ponte de Lima, no Sábado de Aleluia procedia-se à Queima de Judas, personificado por um boneco de palha que, depois da encenação do julgamento e leitura do testamento de Judas Iscariotes, era passeado pelas ruas, enforcado e queimado por efeitos pirotécnicos logo após o repique da Aleluia. Sobrevivência dum antiquíssimo rito pagão, forma simbólica de exorcizar os males e vingança contra o culpado pelas penitências como autor da traição perpetrada a Jesus.

 

Páscoa alta, chumbo na malta.

 

    No concelho de Arcos de Valdevez fazia-se o Enterro do Bacalhau, tradição que remonta ao tempo da contra-reforma, no século XVI. Consistia num pitoresco cortejo fúnebre nocturno com três andores que percorriam as vielas da vila, entrecortado pela loquacidade de sermões pregados por coisas e loisas.

 

    O Compasso Pascal fazia a visita pelas ruelas do povoado e atalhos por onde certamente não andou Cristo, prolongando-se em paróquias de maior extensão até ao Domingo de Pascoela. Em eras de antanho, até ao boqueirão da década de 1920, competia ao reverendo pároco a alimentação dos elementos do compasso, mandando servir um lauto repasto antes da saída da cruz e uma ceia ao recolher.

 

 

    Antigamente o Compasso Pascal, o Dia da Cruz, encabeçado pelo sacerdote paramentado de chapéu de três-bicos, sotaina, sobrepeliz e estola, era acaudatado pelo mordomo da cruz, os moços da caldeira, da campainha e das esmolas, os homens de opas que recolhiam o folar do abade e as pessoas mais santóginhas da paróquia, acompanhados por alguns tocadores de bombos, sacabuxas e charamelas, arautos ruidosos, sem andar a sarramancar os pés.

 

Páscoa em Março, ano de mortaço.

 

    Porém, as casas que abriam a porta à cruz eram preparadas de antemão. Limpeza geral para aliviar o sarranho, profusão de adornos de flores e motivos vegetalistas à entrada, ervas odoríferas espalhadas na cozinha ou sala fadada à visita, cheirosas malvas e alecrins, no fito de atenuar os odores incómodos do sarro e do cortelho do gado.

 

    Botavam nas camas as melhores colchas, as lindíssimas toalhas de linho saiam airosas das arcas onde recolhiam o ano inteiro. O caminho alcatifado com giestas, urzes e ramos, um tapete verde que ligava umas casas às outras, pedia vénia aos jardins da Babilónia, mesmo em dia de molha-tolos.

 

    Após a saudação tradicional e sucintas cortesias, o mordomo dava o crucifixo a beijar aos presentes ajoelhados e contritos, em respeito da primazia hierárquica secularmente estabelecida a partir da ilharga do dono da casa. Todos com o fato de ver a Deus, por cima das ceroilas de estopa, beijavam a cruz com gravidade.

 

    Logo de seguida, a comandita aboletava-se com uma refeição ligeira ou merenda mais ou menos suculenta conforme abastança do proprietário, adoçado com biscoitos e beberete de cálices de vinho fino. A hospitalidade tinha de ser conforme.

 

A festa do Natal é em casa, a da Páscoa na praça, a do Espírito Santo no campo.

 

    Alguns homens equipados de cestos e sacas recolhiam o folar do abade para o bornal, constituído por pão-de-ló, ovos, pitas pedreses, granizés, açúcar, milho, batatas e demais vitualhas de acordo aos usos e costumes e posses de cada um. Esta prática arcaica como as rendas de são-miguel também desapareceu de todo e foi substituído, por imposição dos padres, por um sobrescrito com dinheiro depositado em cima duma salva de prata ou baixela de estanho.

 

    Nos lares enlutados pela morte recente dum ente querido a cerimónia era limitado a um responso rezado pelo pároco, ao qual assistiam tão-só os familiares, sem a presença da comitiva pascal, a pôr-se de banda como se nada fosse e receio dos espectros.

 

 

    No concelho de Paredes de Coura, ainda no auge da centúria de oitocentos perdurava uma original tradição em torno da Capela do Senhor do Amparo, onde se reuniam os vizinhos párocos de Linhares e de Ferreira, e ali cada um botava a beijar a cruz aos presentes, e tupa que tupa de rota batida cada qual rumo à respectiva freguesia. Na Ribeira Minho, os párocos de Cristelo Covo, de Valença, e de Sobrado, na Galiza, atravessam o rio Minho de barco para dar de beijar a cruz na margem inversa a fim de cumprirem a tradição transfronteiriça do Lanço da Cruz, uma genuína romaria luso-galaica.

 

Quando a Páscoa cai em Março, ou muita fome ou mortaço.

 

   O almoço pascal topava mesa farta como o milagre de Caná e digno manjar dos deuses. Sacrificava-se um velho galo, devidamente assado e guarnecido por saboroso arroz de miúdos fazia escolta a um suculento caldo de toucinho, numa cama de feijão, massa e rodelas de pão-trigo ou broa, a fartecer o estômago, verdadeiro pitéu dos anjos em dia de azul diáfano.

 

 

    Noutras terrinhas alto-minhotas, como Monção, cozinhavam o carneiro assado no forno, por cima dum alguidar de arroz colorido com açafrão e temperado com as águas da cozedura das carnes de porco, vaca e galinha da melhor raça.

 

    A pitança exigia a presença usual do pão-de-ló, doce como o raio de sol estival, a quem os minhotos chamavam pão-leve, bate ou bolinhol, tal como diz a cantigueta:

 

Bate padeirinha,

Bate o pão-de-ló;

Duma banda tu,

Doutra banda eu só.

 

    Guarnecia a sobremesa mais algumas iguarias de quatro assobios, como as regueifas de pão-podre, o arroz-doce, bolos brancos, roscas e amêndoas. A festança estendia-se também à criançada extasiada e olhos arregalados, a quem os padrinhos de baptismo cobriam de mimos, roscas de pendurar ao pescoço e ovos pintados. Doces em farta até fazerem dores de barriga pelos verdes anos e ainda alguns tostões para a afidalgar a algibeira.

 

 

   O ritual do Ovo da Páscoa simboliza o embrião da vida e do mundo, o qual era tingido de castanho por efeito da casca de cebola e integrava também os bolos folares que se distribuíam como cerimonial de oferenda aos familiares e amigos do peito. Em Viana do Castelo costumava-se rabiscar a casca do ovo pintado de molde a desenhar cruzes, corações, flores e arabescos.

 

    Terminada a quadra pascal, lá voltava o minhoto à labuta de atamancar a vidinha, longe de afagos, ano após ano em altibaixos. E mais não digo, pois artigo tamanho é capaz de aborrecer um santo em dias prósperos.

Imagem do Senhor dos Passos, na Capela do Senhor Ecce Homo, nos Tojais, lugar da freguesia de Padornelo, oferta do benemérito José Narciso Monteiro. O artigo descreve o ritual e tradições da Páscoa em eras de antanho no Alto Minho, em especial nos concelhos de Arcos de Valdevez, Monção, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Valença e Viana do Castelo.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

NOTAS SOBRE O NATAL MINHOTO

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Ao longo dos anos fui coligindo alguns apontamentos sobre diversos usos e costumes minhotos, entre os quais avultam umas notas sobre a quadra natalícia, colhidas de levante a poente a ouvir as gentes idosas das nossas aldeias, mas também com recurso a consulta bibliográfica, hoje passadas a pena.

                                                                         

    Em Paredes de Coura, mal entrava a aragem do Natal, os lavradores usavam os doze dias antecedentes para fazerem conjunturas sobre o estado do tempo no ano seguinte. Assim, o dia 13 de Dezembro representaria a meteorologia do mês de Janeiro, o dia 14 afigura Fevereiro, sendo o mês de Dezembro vindouro representado pelo próprio dia 24, o da consoada.

                                                                                     

    Na madrugada do dia 16 de Dezembro começava a Novena de Natal, como processo de purificação e preparação, com missas, ladainhas e cantos litúrgicos, rezando-se nove padre-nossos, nove ave-marias e nove glórias. Esta antiga prática religiosa originou a enfática expressão «semana dos nove dias».

                                                                            

    Por sua vez, José Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa, vol. VIII, 1982, p. 508) faz referência à Rezada do Alho, antiquíssimo costume da freguesia minhota de S. João de Rei, Póvoa de Lanhoso, rezada no adro da igreja, onde se distribuía uma malga de vinho, uma fatia de broa e alhos pelos presentes, por entre padres-nossos e ave-marias.

                                                                                       

    O presépio era, então, um costume muito radicado, ocupando lugar cimeiro no imaginário popular, no entusiasmo da criançada e na casa do lavrador, com montanhas verdejantes, plantas vicejantes, casinhas maviosas, cascatas cristalinas, esplêndidas fontes, gentis mulheres, laboriosos camponeses, diligentes trabalhadores, pastores, grutas acolhedoras, o cândido menino nas palhinhas bafejado pelo burro e a vaca, a Virgem Maria e o venerável S. José, por entre vultos bíblicos e antigos romanos, tais e tais. Tudo num ambiente bucólico e pueril, mistura tanto do divino como do profano, espectáculo de tamanha excelsitude.

                                                                             

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

                                                                                                                            

    Para aquecer a noite gélida, um madeiro de carvalho era colocado na lareira. Diziam as santas avós, em sabedoria milenária, que o fumo e as cinzas do Canhoto de Natal tinham a miraculosa função de repelir as faíscas e trovoadas, uma espécie de pára-raios campestre, além de eficazes propriedades medicinais em certas doenças, devendo para tal arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

                                                                                     

    Noutras terras, como Padornelo (Paredes de Coura), guardava-se religiosamente uma acha do cepo queimado para ser lançado à lareira e queimado de novo em dia de grande trovoada ou temporal medonho, dadas as suas sobrenaturais virtudes contra as tempestades. Até onde chegar o fumo do “Canhoto de Natal” não tombaria raio nenhum no ano seguinte (Famalicão, Paredes de Coura).

                                                                             

    Em Vila Nova de Famalicão também a borralha da lareira da Consoada era usada para fins curativos na medicina popular. Os cascos das pinhas queimados na noite de Natal para extracção dos pinhões tinham, igualmente, propriedades de protecção contra os trovões, sendo guardados e novamente colocados ao lume em dias de borrasca (Famalicão, Barcelos)

                                                                                                 

    Nalgumas localidades do Baixo Minho mais raiano com Trás-os-Montes (Terra de Bouro, Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto), a rapaziada surripiava um cepo de carvalho ou azinheira para ser queimado no adro da igreja durante a noite de 24 para 25 de Dezembro, sem reprovação pública do proprietário a quem retiravam o tronco, que assim “fornecia” o madeiro para a fogueira. O “Canhoto de Natal” era transportado inteiro num carro de bois, em ambiente festivo e de grande algazarra, folia rude dos povos.

                                                                                                          

    Em Padornelo, freguesia do concelho de Paredes de Coura, ainda na década de 1960 fazia-se um delicioso arroz de polvo seco para a Ceia da Consoada, que sei ter sido usual e tradicional em Pias, a compor escolta ao obrigatório bacalhau. Aqui, nesta localidade de Monção, a parte da doçaria era composta por bolos de chila e tostas, designação que davam às rabanadas.

                                                                                

    Em Viana do Castelo, para fazer companha ao bacalhau e ao polvo estufado com torradas finas, guarnecia a mesa um terceiro prato de bolinhos de bacalhau com esparregado de nabiças, resguardado por arroz-doce, rabanadas antigas, bolinhos de jerimu ou abóbora-menina, mexidos de mel, terminando ao ceiote – ceia depois da meia-noite – com a sopa dourada de Natal. Tudo um manjar dos deuses.

                                                                                                             

    Embora o arroz-doce fosse elemento essencial da doçaria da Páscoa em muitas casas era, ainda, vulgar formar a modesta bateria de doces que vinha adoçar a mesa de Natal, iguaria de fazer rir os olhos, no resto do ano só havia cibo de broa.

                                                                       

    Os formigos são, por excelência, o doce natalício da região de Ribeira Lima, feitos com pão de trigo duro, que se esfarela para dentro dum pote ao lume, com água e mel, mexendo-se sempre. Quando a massa borbulhar, mostrar boa catadura e ficar mais consistente, juntava-se-lhe uvas passas, nozes e figos aos pedacinhos, fervendo depois mais uns minutos. Deve servir-se frio, sendo feito dois ou três dias antes da consoada e em grande quantidade, não era tempo de ser somítico de unhas rentes.

                                                                           

    Uns dos acepipes mais usados na mesa alto-minhota eram as bêbedas, fatias de pão trigo cortadas com um dedo de espessura, levemente torradas e mergulhadas numa calda de vinho, canela e açúcar ou mel. Noutras localidades, como em Padornelo (Paredes de Coura), ou em Riba de Mouro (Monção), as fatias ficavam a embeber, mergulhadas na dita calda de vinho, açúcar e canela, atoladas em gozo gastronómico.

                                                                              

    Os pinhões eram presença constante em qualquer mesa, festim ao lado do arroz-doce, as rabanadas minhotas – umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas –, as fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar, os figos, as uvas passas, as nozes e toda a casta de vitualhas. As pinhas estão lembradas nesta quadra maviosa de Viana do Castelo:

 

Nossa Senhora da Serra

Lá anda no pinheiral,

Apanhando pinha mansa

Para a noite de Natal.

                                                                                                

    Ao fim do serão, à volta do lume comia-se a sopa de vinho quente, adocicada com mel ou açúcar, dentro dum grande malga, entulhada com broa ou pão trigo a fazer a parte sólida. Era a única altura em que se comia sopa, pois o resto do ano somente o caldo vinha à mesa do lavrador.

                                                                                           

    Em São Lourenço da Montaria, freguesia do concelho de Viana do Castelo, a tradicional consoada com bacalhau, nabos e couves emparelhava ainda com a consoladora sopa de vinho quente com açúcar. Tudo de estalo e truz.

                                                                                          

    Por sua vez, em Monção, umas horas depois da ceia, a família comia a sopa de trigo, preparada num grande alguidar, com recurso a vinho verde tinto, açúcar e pão de trigo aos pedaços, de fazer estoirar o cós das calças.

 

Os filhos dos reis

Em berço doirado,

Só bós, meu menino

Em palhas deitado.

                                                                                    

    Em qualquer localidade do Alto Minho a mesa, com os seus restos alimentares, ficava posta na noite de 24 para 25 de Dezembro. Não podia ser levantada sob pretexto nenhum, para saciar as alminhas e os anjinhos, que vinham comer de noite, enquanto a famelga dormia. No Baixo Minho até se punha um talher suplementar para honrar a memória dos familiares já mortos, e, também, não se levantava a mesa da consoada a fim de servir o repasto às almas.

 

Natal ao domingo

Venderás os bois

E comprarás, trigo;

Natal à segunda-feira

Enche a eira.

                                                                              

    Em suma, a Consoada de Natal do distrito vianense, pese embora as variáveis, era composta por bacalhau cozido com batatas, ovos, cenouras e couve penca curtida pela geada, seguido de polvo estufado ou arroz de polvo meia-cura, rabanadas minhotas, rabanadas antigas, rabanadas fidalgas, formigos ou mexidos do Natal e pão-de-ló, numa mesa adornada por nozes, figos, passas, pinhões e avelãs, tudo bem regado com um odre do bom vinho. Após a “missa do galo”, o estômago era acalmado com a sopa de vinho quente, adoçada com mel ou açúcar e reforçada, nas casas mais abastadas, com um calistro de vinho fino (Porto, Madeira ou Moscatel).

 

Ó meu Menino Jesus

Que é da bossa cabeleira?

– Ficou-me lá no conbento

No colo de uma freira.

                                                                

    Enquanto o canhoto ardia na lareira, as mães e as mãezinhas – tratamento carinhoso para as avós – cantarolavam as seguintes quadras, com o mesmo fervor dos salmos do Rei David cantados no coro da Sé:

 

Donde vêm os Reis Magos?

Da parte do Oriente

A adorar o Deus menino

Que é Jesus omnipotente.

 

Foram a casa de Herodes

Por ser o melhor reinado,

Para saber o caminho

Onde Jesus era nado.

 

Herodes como malvado

Como profeta malino,

Às avessas ensinou

Aos Santos Reis o caminho.

 

A estrelinha os guiou

Para cima duma cabana,

O menino encontrou

Deitado numa choupana.

 

A cabana era pequena

Não cabiam todos três,

Mesmo assim adoraram

Cada um por sua vez.

 

Todos eles ofereceram

Oiro, mirra e incenso,

Ele nada precisava

Porque era já imenso.

                                                                            

    No entrementes entoavam esta cantiguinha popular de Natal, com o rapazio a fazer coro, ou a atrapalhar, conforme o sono do adiantado da hora e o monco de palmo, colhida inicialmente em Ponte de Lima:

                                                              

Ó que noite de lura

Ó que noite de alegria!

Caminhando vai José

Caminhado vai Maria.

 

Ambos vão para Belém

Mais de noite que de dia,

Quando chegaram a Belém

Já toda a gente dormia.

 

– Abri-nos essas portinhas

Porteiros da agonia.

– Vinde, vinde senhora

Até ser claro o dia.

 

S. José foi pelo lume

S. José que fazeria?

Já a Virgem tinha parido

Era agora novo dia.

 

Desceu um anjo à terra

Paninhos de oiro trazia,

Tornando a subir ao céu

Cantou uma Ave-Maria.

 

Pai Eterno lhe perguntou

Onde estava Maria,

Maria estava bem

O menino sorria.

                                                                        

    Até os aforismos populares fazem alusão directa, ao garantir-nos que «no dia de Natal, já o dia tem mais um saltinho de pardal», mas asseguram que «de Todos-os-Santos ao Natal é Inverno natural».

                                                    

    A noite de Natal marcava de modo determinante a vida das pessoas, pois acreditava-se nessa ocasião que se o luar fosse intenso o linho medraria imenso e a colheita seria boa. Ao invés, a noite escura prenunciava uma produção aziaga.

                                                                                          

    Também o alho recebe a protecção explícita da quadra festiva, como garante a sabedoria popular que costuma meditar à vontade nestas coisas (Minho, Beira e Trás-os-Montes):

 

Quem quiser bom alhal

Semeia-o pelo Natal.

                                                                               

    Nas horas que antecediam a “Missa do Galo”, à volta da lareira onde o “Canhoto de Natal” tinha a santa função de abrasar toda a noite, brincava-se ao rapa-tira-deixa e põe, um jogo de pinhões, enquanto os crescidos jogavam às cartas ou lembravam os familiares e as narrativas de arrepelar os cabelos.

                                                                  

    Noite cerrada, os sinos convocavam os fiéis para a Missa do Galo, ala que se fazia tarde para beijar a imagem do Menino Deus e uma mó de gente inspirada pelo Altíssimo a entoar, a carnadura retraçada pelo cieiro:

                         

Alegrem-se os céus e a terra

Cantemos com alegria,

Já nasceu o Deus Menino

Filho da Virgem Maria.

                                                                                                       

    Em geral eram rezadas três missas de Natal, a missa do galo (meia-noite de 24 para 25 de Dezembro), a designada missa da galinha – logo na manhã de 25 de Dezembro – e a missa ordinária na tarde deste último dia. Quem assistisse às três liturgias recebia a graça infinita de amparo celestial e mais indulgências do Céu contra maleitas e maus-olhados.

                                                                             

    A Santa Noite de Natal escorria beatitude, angra divina a ter dó na humanidade. Era a única do ano em que se podia andar em completo sossego na medonha escuridão, mesmo sem recurso ao santo anjo da guarda, aliviado do pavor das aparições das abantesmas, almas penadas, lobisomens ou coisas-más, conforme crença neste extraordinário prodígio nocturno arreigada em Paredes de Coura e Ponte da Barca.

                                                                                                  

    Na madrugada de 25 de Dezembro, no rescaldo da festança, o Menino Jesus descia pela chaminé para deixar os presentes no sapatinho. A miudagem espertava com as galinhas, mal rompia a alva da manhãzinha, e sem conter o coração aos saltos investia a lareira à cata das modestíssimas prendas em tempos de vacas magríssimas, cotejadas com o despesismo actual, contudo inegavelmente mais preciosas.

                                                                                        

    Naquela altura o desconforme Pai Natal não existia no imaginário do Minho, nem embocava chaminés adentro, nem tínhamos com ele atenção de lei e mesuras. Os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus no dia 25 e nunca na véspera.

                                                                                                         

    Ao almoço – ou jantar como então se dizia naquele torrão de sossego – do dia 25 de Dezembro comia-se a roupa velha, uma delícia feita com o sobejo da lauta consoada. Para amanhar a janta da Ceia de Natal, matava-se um soberbo galo da capoeira, preparado com arroz de pica no chão e chouriço de reco cevado a castanhas, um pitéu que suspirava no estômago.

                                                                                

   O Natal era a festa da família, por excelência, que assistíamos de olhos esbugalhados. Época harmoniosa, sinal de mesa farta idêntica ao milagre de Caná, de molde a reconquistar as almas e o Reino de Sião a Satanás, de deslumbrante placidez supraterrestre, como se chovesse sobre todos o maná da fartura, para retemperar forças do corpo moído de pancada na canseira da labuta diária. Mais do tempo a vida era dor e provação, carecida de todo o conforto.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 13:31
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

MEDICINA POPULAR DO MINHO I

Abcessos – O fel do porco macho, em especial, mas doutros animais ainda, era convincente no tratamento dos abcessos, misturado com um pouco de mel. Para fazer emolientes e pomadas, com as quais se friccionava o abcesso, fazia-se um preparado das enxúndias – gordura das aves – das galinhas, mas também papas de batata com leite, papas de farinha de pau ou um fortíssimo unguento à base de sabão amarelo, gema de ovo, açúcar mascavado e folhas de amieiro[1].

 

Agulhas – As agulhas de coser eram temidas, pois uma vez espetadas bem fundo no tecido muscular, entravam na corrente sanguínea em direcção ao coração, com resultados funestos. Aplicava-se sobre o ponto da picada, uma língua de raposo macho[2], a qual também é empregue para expulsar espinhas cravadas no corpo.

 

Alopecia – A perda ou ausência de cabelos, resultante de alterações fisiológicas, efeitos das enfermidades, distúrbios endócrinos e factores hereditários, era tratada com cozimento de tormentelo (Thymus Coespititius), um subarbusto indígena do Norte de Portugal, aromático e medicinal.

 

Amenorreia – A ausência, diminuição ou supressão do fluxo menstrual, exigia o uso miraculoso do chá da erva das Setes Sangrias ou do chá da Sargacinha dos Montes (Lithospermum diffusum), que habita os pinhais e os matos entre Dezembro e Setembro, conforme esta quadra popular:

À sargacinha do monte

Eu devo-lhe obrigações.

Que encobre meus segredos

Em certas incasiões.

 

Na região do Baixo Minho usavam o chá de nêveda (Clinopodium ascendens), ou, melhor ainda, o pitéu raríssimo de caldos de galinha preta.

 

Anemia – Em Paredes de Coura, quando as crianças ou adultos sofriam de “fraqueza” ou de “sangue fraco”, davam-se as famosas gemadas feitas com gemas de ovo, açúcar amarelo e vinho fino – hoje designado por Vinho do Porto – queimado. Por vezes era colocado um prego nessa infusão a marinar uns dias. Para as crianças mais pequenas o vinho fino era substituído por leite muito quente. Noutras regiões minhotas a terapêutica mandava administrar bolos de pão de milho untados com azeite, receita que não repugnava o sentido.

 



[1] Alexandre Lima Carneiro e Fernando Pires de Lima, Medicina Popular Minhota, 1931, p. 231.

[2] Alexandre Lima Carneiro e Fernando Pires de Lima, Medicina Popular Minhota, 1931, p. 231.

 

Canastro e casa na Bazanca, lugar da freguesia de Padornelo, concelho de Paredes de Coura.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:01
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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

POESIA LAUDATÓRIA EM HONRA AO DEUS MENINO

    Nas eras de antanho as mães e as avós embalavam os seus enternecidos rebentos ao som de cantilenas, cujo rasto se perde no tempo, passadas de geração em geração, muitas delas até aos dias de hoje, embora disso já não dependa o salvatério da família.

 

    O tema é vasto, mas dado a quadra presente, de cariz singular, arrecado aqui meia dúzia de cantilenas laudatórias em honra ao Deus Menino a par de algumas cantigas de embalar, as quais bastas vezes se confundem, pelo menos na boca materna, para capacitar o crianço da inutilidade da resistência em dormir.

 

    A primeira, intitulada Beijai o Menino, era entoada numa vastíssima região do Norte do País, com particular incidência no Minho e em Trás-os-Montes, e da qual se conhecem algumas variantes, conforme roça a asa glacial do frio.

 

Beijai o Menino

 

Beijai o Menino,

Beijai-o agora;

Beijai o Menino

De Nossa Senhora.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Mas ai que portento,

Mas ai que alegria!

Nasceu o menino

Da Virgem Maria.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Filhos de homens ricos

Em berço doirado,

Só vós, meu Menino,

Em palhinhas deitado.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Em palhinhas deitado,

Em palhas aquecido,

Filho duma rosa

Dum cravo nascido.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Estava Maria

À beira do rio,

Lavando os paninhos

Do seu bento filho.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Maria lavava

José estendia,

Chorava o Menino

Com frio que tinha.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Calai meu Menino,

Calai meu amor!

As vossas verdades

Me matam com dor.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Beijai o Menino

Beijai-o no pé,

Beijai o Menino

Que é de S. José.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

    Da terceira quadra existe esta versão:

Os filhos dos reis

Em berço doirado,

Só vós, meu Menino

Em palhas deitado!

 

    Da quinta quadra conheço esta variante:

Estava Maria

À borda do rio,

Lavando os paninhos

Do seu bento filhinho.

 

    A sétima quadra apresenta esta cambiante, conforme a latitude geográfica:

Calai-vos Menino,

Calai-vos Senhor!

Que vossas bagadas

Me cortam com dor.

 

    A seguinte canção de berço, de gosto poético popular e tonalidade mais prosaica, ouvia-se também em todo o Norte, e fazia concorrência de topo à chucha de estopa reforçada de uma colher de açúcar, a reparar o sono.

 

Ó meu Menino Jesus

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é da vossa cabeleira?

– Ficou-me lá no convento

Ao colo de uma freira.

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é da vossa camisinha?

– Ficou-me lá no monte

Debaixo duma lapinha.

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é do vosso calçãozinho?

– Está em casa do alfaiate

Pra pregar o botãozinho.

 

    À falta de melhor, segue uma série de versos soltos com a mesma temática, em toadilha de encantar o Inverno, no pressuroso gesto de embalar, enquanto o cachopo a choutar na chupeta, a boca aberta na escâncara do riso.

 

Maria embala o Menino,

Com a mão e não com o pé;

Este Menino qu’embalas

É Jesus de Nazaré.

 

São José é carpinteiro,

Fez um bercinho doirado,

Para deitar o Menino

Debaixo do cortinado.

 

Ó meu amado Menino

Boquinha de marmelada,

Dai-me um bocadinho dela

Que minha mãe não tem nada.

 

Ó meu Menino Jesus

Meu lindo amor-perfeito,

Se tende frio, vinde cá

Chorai aqui no meu peito.

 

Ó meu amado Menino

Descalcinho pelo chão,

Metei os vossos pezinhos

Dentro do meu coração.

 

Eu hei-de dar ao Menino

Para a noite de Natal,

Camisinha de cambraia,

Botõezinhos de cristal.

 

Eu hei-de dar ao Menino

Uma fita p’ró chapéu,

Também ele me há-de dar

Um cantinho lá no Céu.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

NOTAS SOLTAS SOBRE O NATAL MINHOTO

    Ao longo dos anos fui coligindo alguns apontamentos sobre diversos usos e costumes minhotos, entre os quais avultam umas notas sobre a quadra natalícia, colhidas de levante a poente a ouvir as gentes idosas das nossas aldeias, mas também com recurso a consulta bibliográfica, hoje passadas a pena.

    Em Paredes de Coura, mal entrava a aragem do Natal, os lavradores usavam os doze dias antecedentes para fazerem conjunturas sobre o estado do tempo no ano seguinte. Assim, o dia 13 de Dezembro representaria a meteorologia do mês de Janeiro, o dia 14 afigura Fevereiro, sendo o mês de Dezembro vindouro representado pelo próprio dia 24, o da consoada.

    Na madrugada do dia 16 de Dezembro começava a Novena de Natal, como processo de purificação e preparação, com missas, ladainhas e cantos litúrgicos, rezando-se nove padre-nossos, nove ave-marias e nove glórias. Esta antiga prática religiosa originou a expressão «semana dos nove dias».

    Por sua vez, José Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa, vol. VIII, 1982, p. 508) faz a referência à Rezada do Alho, antiquíssimo costume da freguesia minhota de S. João de Rei, Póvoa de Lanhoso, rezada no adro da igreja, onde se distribuía uma malga de vinho, uma fatia de broa e alhos pelos presentes, por entre padre-nossos e ave-marias. 

Presépio mecânico de Paredes de Coura - Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira    O presépio era, então, um costume muito radicado, ocupando lugar cimeiro no imaginário popular, no entusiasmo da criançada e na casa do lavrador, com montanhas verdejantes, plantas vicejantes, casinhas maviosas, cascatas cristalinas, esplêndidas fontes, gentis mulheres, laboriosos camponeses, diligentes trabalhadores, pastores, grutas acolhedoras, cândido menino nas palhinhas bafejado pelo burro e a vaca, a Virgem Maria e o venerável S. José, por entre vultos bíblicos e antigos romanos, tais e tais. Tudo num ambiente bucólico e pueril, mistura tanto do divino como do profano, espectáculo de tamanha excelsitude.

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

    Para aquecer a noite gélida, um madeiro de carvalho era colocado na lareira. Diziam as santas avós, em sabedoria milenária, que o fumo e as cinzas do Canhoto de Natal tinham a miraculosa função de repelir as faíscas e trovoadas, uma espécie de pára-raios campestre, além de eficazes propriedades medicinais em certas doenças, devendo para tal arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

    Noutras terras, como Padornelo (Paredes de Coura), guardava-se religiosamente uma acha do cepo queimado para ser lançado à lareira e queimado de novo em dia de grande trovoada ou temporal medonho, dadas as suas sobrenaturais virtudes contra as tempestades. Até onde chegar o fumo do Canhoto de Natal não tombaria raio nenhum no ano seguinte (Famalicão, Paredes de Coura).

    Em Vila Nova de Famalicão também a borralha da lareira da Consoada era usada para fins curativos na medicina popular. Os cascos das pinhas queimados na noite de Natal para extracção dos pinhões tinham, igualmente, propriedades de protecção contra os trovões, sendo guardados e novamente colocados ao lume em dias de borrasca (Famalicão, Barcelos)

    Nalgumas localidades do Baixo Minho mais raiano com Trás-os-Montes (Terra de Bouro, Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto), a rapaziada surripiava um cepo de carvalho ou azinheira para ser queimado no adro da igreja durante a noite de 24 para 25 de Dezembro, sem reprovação pública do proprietário a quem retiravam o tronco, que assim “fornecia” o madeiro para a fogueira. O Canhoto de Natal era transportado inteiro num carro de bois, em ambiente festivo e de grande algazarra, folia rude dos povos.

    Em Padornelo, freguesia do concelho de Paredes de Coura, ainda na década de 1960 fazia-se um delicioso arroz de polvo seco para a Ceia da Consoada, que sei ter sido usual e tradicional em Pias, a compor escolta ao obrigatório bacalhau. Aqui, nesta localidade de Monção, a parte da doçaria era composta por bolos de chila e tostas, designação que davam às rabanadas.

    Em Viana do Castelo, para fazer companha ao bacalhau e ao polvo estufado com torradas finas, guarnecia a mesa um terceiro prato de bolinhos de bacalhau com esparregado de nabiças, resguardado por arroz-doce, rabanadas antigas, bolinhos de jerimu ou abóbora-menina, mexidos de mel, terminado ao ceiote – ceia depois da meia-noite – com a sopa dourada de Natal. Tudo um manjar dos deuses.

Presépio mecânico de Paredes de Coura - Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira    Embora o arroz-doce fosse elemento essencial da doçaria da Páscoa em muitas casas era, ainda, vulgar formar a modesta bateria de doces que vinha adoçar a mesa de Natal, iguaria de fazer rir os olhos, no resto do ano só havia cibo de broa.

    Os formigos são, por excelência, o doce natalício da região de Ribeira Lima, feitos com pão de trigo duro, que se esfarela para dentro dum pote ao lume, com água e mel, mexendo-se sempre. Quando a massa borbulhar, mostrar boa catadura e ficar mais consistente, juntava-se-lhe uvas passas, nozes e figos aos pedacinhos, fervendo depois mais uns minutos. Deve servir-se frio, sendo feito dois ou três dias antes da consoada e em grande quantidade, não era tempo de ser somítico de unhas rentes.

    Uns dos acepipes mais usados na mesa alto-minhota eram as bêbedas, fatias de pão trigo cortadas com um dedo de espessura, levemente torradas e mergulhadas numa calda de vinho, canela e açúcar ou mel. Noutras localidades, como em Padornelo (Paredes de Coura), ou em Riba de Mouro (Monção), as fatias ficavam a embeber, mergulhadas na dita calda de vinho, açúcar e canela, atoladas em gozo gastronómico.

    Os pinhões eram presença constante em qualquer mesa, festim ao lado do arroz-doce, as rabanadas minhotas – umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas –, as fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar, os figos, as uvas passas, as nozes e toda a casta de vitualhas. As pinhas estão lembradas nesta quadra maviosa de Viana do Castelo:

Nossa Senhora da Serra
Lá anda no pinheiral,
Apanhando pinha mansa
Para a noite de Natal.

    Ao fim do serão, à volta do lume comia-se a sopa de vinho quente, adocicada com mel ou açúcar, dentro dum grande malga, entulhado com broa ou pão trigo a fazer a parte sólida. Era a única altura em que se comia sopa, pois o resto do ano somente o caldo vinha à mesa do lavrador.

    Em São Lourenço da Montaria, freguesia do concelho de Viana do Castelo, a tradicional consoada com bacalhau, nabos e couves emparelhava ainda com a consoladora sopa de vinho quente com açúcar. Tudo de estalo e truz.

    Por sua vez, em Monção, umas horas depois da ceia, a família comia a sopa de trigo, preparada num grande alguidar, com recurso a vinho verde tinto, açúcar e pão de trigo aos pedaços, de fazer estoirar o cós das calças.

    Em qualquer localidade do Alto Minho a mesa, com os seus restos alimentares, ficava posta na noite de 24 para 25 de Dezembro. Não podia ser levantada sob pretexto nenhum, para saciar as alminhas e os “anjinhos”, que vinham comer de noite, enquanto a famelga dormia. No Baixo Minho até se punha um talher suplementar para honrar a memória dos familiares já mortos, e, também, não se levantava a mesa da consoada a fim de servir o repasto às almas.

Presépio mecânico de Paredes de Coura - Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira    Em suma, a Consoada de Natal do distrito vianense, pese embora as variáveis, era composta por bacalhau cozido com batatas, ovos, cenouras e couve penca curtida pela geada, seguido de polvo estufado ou arroz de polvo meia-cura, rabanadas minhotas, rabanadas antigas, rabanadas fidalgas, formigos ou mexidos do Natal e pão-de-ló, numa mesa adornada por nozes, figos, passas, pinhões e avelãs, tudo bem regado com um odre do bom vinho. Após a missa do galo, o estômago era acalmado com a sopa de vinho quente, adoçada com mel ou açúcar e reforçada, nas casas mais abastadas, com um calistro de vinho fino (Porto, Madeira ou Moscatel).

    Enquanto o canhoto ardia na lareira, as mães e as mãezinhas – tratamento carinhoso para as avós – cantarolavam as seguintes quadras, com o mesmo fervor dos salmos do Rei David cantados no coro da Sé:

Donde vêm os Reis Magos?
Da parte do Oriente
A adorar o Deus menino
Que é Jesus omnipotente.

            

Foram a casa de Herodes
Por ser o melhor reinado,
Para saber o caminho
Onde Jesus era nado.

             

Herodes como malvado
Como profeta malino,
Às avessas ensinou
Aos Santos Reis o caminho.

          

A estrelinha os guiou
Para cima duma cabana,
O menino encontrou
Deitado numa choupana.

             

A cabana era pequena
Não cabiam todos três,
Mesmo assim adoraram
Cada um por sua vez.

           

Todos eles ofereceram
Oiro, mirra e incenso,
Ele nada precisava
Porque era já imenso.

    No entrementes entoavam esta cantiguinha popular de Natal, com o rapazio a fazer coro, ou a atrapalhar, conforme o sono do adiantado da hora e o monco de palmo, colhida inicialmente em Ponte de Lima:

Ó que noite de lura
Ó que noite de alegria!
Caminhando vai José
Caminhado vai Maria.

         

Ambos vão para Belém
Mais de noite que de dia,
Quando chegaram a Belém
Já toda a gente dormia.

          

Abri-nos essas portinhas
Porteiros da agonia
.
Vinde, vinde senhora
Até ser claro o d
ia.

          

S. José foi pelo lume
S. José que fazeria?
Já a Virgem tinha parido
Era agora novo dia.

            

Desceu um anjo à terra
Paninhos de oiro trazia,
Tornando a subir ao céu
Cantou uma Ave-Maria.

          

Pai Eterno lhe perguntou
Onde estava Maria,
Maria estava bem
O menino sorria.

    Até os aforismos populares fazem alusão directa, ao garantir-nos que «no dia de Natal, já o dia tem mais um saltinho de pardal», mas asseguram que «de Todos-os-Santos ao Natal é Inverno natural».

    A noite de Natal marcava de modo determinante a vida das pessoas, pois acreditava-se nessa ocasião que se o luar fosse intenso o linho medraria imenso e a colheita seria boa. Ao invés, a noite escura prenunciava uma produção aziaga.

    Também o alho recebe a protecção explícita da quadra festiva, como garante a sabedoria popular que costuma meditar à vontade nestas coisas (Minho, Beira e Trás-os-Montes):
Quem quiser bom alhal
Semeia-o pelo Natal
.

Presépio mecânico de Paredes de Coura - Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira    Nas horas que antecediam a Missa do Galo, à volta da lareira onde o Canhoto de Natal tinha a santa função de abrasar toda a noite, brincava-se ao “rapa-tira-deixa e põe”, um jogo de pinhões, enquanto os crescidos jogavam às cartas ou lembravam os familiares e as narrativas de arrepelar os cabelos.

    Noite cerrada, os sinos convocavam os fiéis para a Missa do Galo, ala que se fazia tarde para beijar a imagem do Menino Deus e uma mó de gente inspirada pelo Altíssimo a entoar:

Alegrem-se os céus e a terra
Cantemos com alegria,
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

    Em geral eram rezadas três missas de Natal, a missa do galo (meia-noite de 24 para 25 de Dezembro), a designada “missa da galinha” – logo na manhã de 25 de Dezembro – e a missa ordinária na tarde deste último dia. Quem assistisse às três liturgias recebia a graça infinita de amparo celestial e mais indulgências do Céu contra maleitas e maus-olhados.

    A Santa Noite de Natal escorria beatitude, a ter dó na humanidade. Era a única do ano em que se podia andar em completo sossego na medonha escuridão, mesmo sem recurso ao santo anjo da guarda, aliviado do pavor das aparições das abantesmas, almas penadas, lobisomens ou coisas-más, conforme crença neste extraordinário prodígio nocturno arreigada em Paredes de Coura e Ponte da Barca.

    Na madrugada de 25 de Dezembro, no rescaldo da festança, o Menino Jesus descia pela chaminé para deixar os presentes no sapatinho. A miudagem espertava com as galinhas, mal rompia a alva da manhãzinha, e sem conter o coração aos saltos investia a lareira à cata das modestíssimas prendas em tempos de vacas magríssimas, cotejadas com o despesismo actual, contudo inegavelmente mais preciosas.

    Naquela altura o Pai Natal não existia no Minho, nem embocava chaminés adentro, nem tínhamos com ele atenção de lei e mesuras. Os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus no dia 25 e nunca na véspera.

    Ao almoço – ou jantar como então se dizia naquele torrão de sossego – do dia 25 de Dezembro comia-se a roupa velha, uma delícia feita com o sobejo da lauta consoada. Para amanhar a janta da Ceia de Natal, matava-se um soberbo galo da capoeira, preparado com arroz de pica no chão e chouriço de reco cevado a castanhas, um pitéu que suspirava no estômago.

Presépio mecânico de Paredes de Coura - Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira    O Natal era a festa da família, por excelência, que assistíamos de olhos esbugalhados. Época harmoniosa, sinal de mesa farta idêntica ao milagre de Caná, de molde a reconquistar as almas e o Reino de Sião a Satanás, de deslumbrante placidez supraterrestre, como se chovesse sobre todos o maná da fartura, para retemperar forças do corpo moído de pancada na canseira da labuta diária. Mais do tempo a vida era dor e provação.

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:30
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Domingo, 1 de Novembro de 2009

MAGUSTOS E FESTEJOS ASSOCIADOS À CASTANHA

    A castanha foi alimento primordial na cadeia alimentar humana em tempos idos, quando a miséria era tanta como os piolhos, sendo gradualmente substituída e marginalizada pela introdução de outros produtos, em especial a batata e o milho. Foi mantimento básico, insubstituível, até ao século XVI, importância que se prolongou nalgumas regiões até ao século XVIII.

                                                                                         

    Dela se fazia o sustento essencial, o caldo substancial, o puré de atulho, a escolta aos demais alimentos e inúmeros pratos, tudo aos punhados. Na mesa do pobre nunca faltava pãozinho de castanhas.

                                  

À falta de pão

Até migalhas vão.

                                                

    Até ao século XVII consumia-se mais castanhas do que pão de trigo e de milho ou batatas, tanto na alimentação humana, como excelente alimento para certos animais, em especial o porco, o carneiro e a vaca leiteira.

                                                          

    Os soutos abrangiam compactas regiões do Norte, em especial nos terrenos graníticos e xistosos de Trás-os-Montes e das Beiras. Na década de 1930 a maior mancha de castanheiros preponderava em Bragança (22.400 hectares), Guarda (15.200), Castelo Branco (12.700), Viseu (10.700) e Vila Real (10.600).

                                                  

    A colheita da castanha decorre de Setembro a Novembro, sendo a apanha feita por homens que varejam as árvores e rapazes que apanham os ouriços, por vezes ajudados pelas mulheres, a esgadanhar na batalha pela vidinha, o estômago precisa tanta pitança como o espírito.

                                               

Se o castanheiro falara

Ele dissera o que viu;

Debaixo da sua sombra

Dois amantes encobriu.

                                                                   

    Hoje a castanha encerra, tão-somente, um carácter simbólico e folclórico residual associado às festas do Outono e nas celebrações dos Santos, Fiéis Defuntos e S. Martinho. Já não é festim à tripa-forra em mesa de cristãos e mouros, nem umbigo do mundo.

                                                    

    O vocábulo magusto tem uma origem controversa, sem certa certeza. Mas virá do latim magnus ustus, «grande fogueira, queimado», e tem correspondência no galego e no asturiano magosto. Magusto, que hoje designa tão-só as castanhas assadas, definia antigamente a própria fogueira onde alabaravam as ditas, o que está conforme com a etimologia.

                                                  

    As tradições que ocorriam por esta altura eram variáveis, embora com algumas pontes comuns, verdadeiras refeições cerimoniais. Outrora, ainda no início do século XIX, em algumas regiões do Norte, os festejos associados à castanha principiavam no dia de S. Simão e S. Judas Tadeu, comemorado a 28 de Outubro, ponto de partida para as merendas prazenteiras de castanhas assadas que se prolongavam até ao S. Martinho.

                                                         

Em dia de S. Simão,

Quem não faz magusto

Não é cristão.

                                                          

    O dia de Todos-os-Santos, igualmente dedicado ao antiquíssimo costume de pedir Pão por Deus, o qual remonta à Idade Média, está, também, relacionado ao magusto, comido à lambardana, a boca a manducar de prazer, masca que masca.

                                                                                                           

A castanha tem uma manha,

Vai com quem a apanha.

                           

    Assim, em muitas localidades de Trás-os-Montes era festejado nesta ocasião o “Magusto dos Santos”, com romarias do poviléu, trupe que trupe virado ao campo, a pilhar castanhas, assando-as de seguida em fogueiras de carqueja, chamiça e sargaço, improvisadas no remanso da pulsação ao ar livre. Tudo bem regado com vinho palhete ou água-pé de canjirão, até tombarem para o lado, no poisar mansinho do torpor da fadiga báquica antes do sol-pôr.

                                                         

Dos Santos a S. Martinho

São onze dias de pão e vinho.

                                                                        

    O magusto de 1 de Novembro era uma quase obrigação social e festiva, um arraial pegado para as populações do Norte de Portugal, a cabriolar como faunos e ninfas, numa alegria indizível que antecedia a solenidade profunda das cerimónias religiosas do Dia dos Finados, a carregar tristeza e borbulhão de lágrimas. O povinho é assim, da alacridade efusiva à mágoa sentida enquanto arde um fósforo.

                                               

Não sei se cante, se chore,

Se qual melhor me será;

O cantar alivia penas,

O chorar as dobrará.

                                         

    Em conformidade com as melhores conjecturas etnológicas aceites, o Magusto dos Santos é a reminiscência de antiquíssimos rituais fúnebres pagãos, do tempo dos deuses farsantes, durante os quais se faziam oferendas em géneros alimentares às almas dos mortos, segundo essa crença arreigada voltavam aos lugares das suas vidas anteriores, não sei se brancos como a cera.

                                

Alma enamorada

De pouco é assombrada.

                                           

    Nessa altura as almas penadas tinham fome de lobo esfaimado e metiam medo adamastórico, apaziguadas com ritos opíparos para retornarem ao limbo e à paz do Senhor, que nestas coisas do fabuloso nada é impossível.

 

    O mandato transcendente da igreja, em parte, apropriou-se desse ritual incarnado no Dia dos Fiéis Defuntos. O cerimonial do magusto, a fogueira e as castanhas, são resquícios residuais de sacrifícios que já foram grandes como a Arca de Noé.

 

Em dia de S. Martinho,

Lume, castanhas e vinho.

                                                                         

    A importância de S. Martinho associado à festa popular das castanhas e como patrono do vinho e dos bêbados cresceu de tal modo e ocupou quase todo o espectro festivo ligado aos magustos, relegando para plano secundário todas as outras tradições e santinhos desta época.

 

    Hoje, como os demais costumes de antanho, é um mero arremedo da pujança festiva que teve outrora, mecanicamente festejado com soberano desdém, meia dúzia de castanhas e larachas de permeio

 

Pelo S. Martinho,

Rabusca o teu soitinho

E apanhas as castanhas

Faz o teu magustinho;

Vai à tua adega,

Encerta teu pipinho

E prova o teu vinhinho;

E, se te apetecer,

Vai ao teu cortelho

E mata o teu porquinho.

 

    Em quase todo o Minho o dia de S. Martinho era celebrado com magustos de castanhas assadas em fogueiras que se acendiam nos eidos e rossios das aldeias. Festividade que se alongava noite adentro até ao cair finíssimo do orvalho, nunca escasseava a malga de vinho verde agulhento, em acenos lampeiros de atmosfera foliona.

 

Pelo S. Martinho

Prova teu vinho,

Ao cabo do ano

Já te não faz dano.

 

    S. Martinho, há que ror de anos, alcançara foros de santo popular com um conteúdo mais profundo pela analogia encavalitada com a vinhaça e a embriaguez, faceta que iremos evidenciar noutro artigo, desde que não seja nas calendas gregas.

 

Do vinho e da mulher

Livre-se o homem se puder.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 01:11
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

A ARTE DA CANGA ARTESANAL

 Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira

    Lá nos idos da década de 1960, lembro-me do meu avô, António Inocêncio Alves, dotado de génio de mestre marceneiro afamado de lés-a-lés em inauditas proezas de lavrar a madeira, donde saiam obras que alumiavam todos de espanto, a transpor o limiar da Arte, um canto de sereia divino, com a autoridade dum pontífice.
 
    Mal despontava a manhã, após o mata-bicho com um gole de café e um cibo de broa, vejo-o a escolher uma boa madeira, geralmente de freixo, choupo ou nogueira, de esmero com aquele tição no olhar, repleto duma sabedoria milenar.
 
    Depois de cortado e escanhoado os toros, pegava da banca a rústica ferramenta, um inventário de palhetes, formões, goivas, maços de madeira, para à mão – abençoadas mãos – fazer o talhe da madeira, tacteando com carinho, seguindo um desenho que ele, magicando consigo, concebera originalmente, imaginação ardente.
 
    Nascia assim a canga, utilizada nos carros de bois, que ele esculpia de forma distinta dos outros que tudo faziam a três pancadas. A canga, era nas suas mãos mais vistosa, dado o seu trabalho artístico e o seu tamanho em altura.
 
    Por esse motivo, alegando que por serem altas e, como tal, batiam nas escorregadias ramadas mais baixas, muitos lavradores preferiam cangar os bois com os cangalhos, menos altos, com decoração paupérrima.
 
    Depois havia aquela terminologia própria e as variadas partes componentes. Os “camalhões” eram as extremidades inferiores mais prolongadas, a “deitada”, a parte encurvada, ao meio, na porção inferior, ladeada pelos camalhões.
 
    Na porção externa dos camalhões eram colocadas, de cada lado, as “piarças”, uma peça em forma de pequena cunha de madeira, de maneira a não permitir a desarticulação dos arcos da canga, geralmente causado pelo movimento bamboleante dos animais.
 
    O corpo central da canga era esburacado por diversas tipos de “furas”. A “fura do tamoeiro” ficava ao centro da canga e foi perdendo funcionalidade, sendo reduzido sistematicamente o perímetro do seu buraco. A “fura ensogadoura” servia para passar as ensogas.
 
    Para fazer a ligação da canga aos animais e ao carro de bois existiam diferentes elementos complementares. Assim, os “arcos”, feitos por madeira encurvada, envolviam o pescoço dos animais, sendo ligados à canga pelas ensogas.
 
    As “ensogas”, duas encorpadas tiras de couro cingidas por um entrelaçado de faixas de couro, prendem as extremidades do arco à canga através das furas ensogadouras.
 
    As “pertizelas”, umas varas de ferro com extremidade aguçada, fixavam o arco e a ensoga, entrando no arco através de dois orifícios, enquanto que a outra extremidade permitia a fixação das pertizelas às cangas, através de uma corrente ou tira de couro.
 
    O “tamoeiro”, formado por duas consistentes tiras de couro, laçadas através das “furas do tamoeiro”, faz a junção da canga ao carro de bois, e sustenta o cabeçalho do carro.
 
    A “chavelha de pôr”, um bordão cilíndrico, atravessa o cabeçalho e, servindo de travão ao tamoeiro, facilita a tarefa de puxar o carro de bois. Por sua vez a “chavelha de descanso”, vara de maior dimensão, facilita o fadário dos animais durante as paragens, bênção de descanso para os coitadinhos.
 
    Depois de cear uma côdea e malga de caldo, pespegava no topo superior da canga, a enfeitar, uns tufos de crina animal, que dão um donairoso aspecto às “cangas de cabeleira”, como então ficam conhecidas.
 
    Mas a arte viva e brilhante do artista está, simplesmente, nos ornamentos, na maior parte dos casos, uns meros “vazados”, inúmeros buracos que se fazem sem aplicação de facto, a esmerar. Até os passarinhos, que a tudo assistiam, cantavam com mais blandicioso chilreio.
 
    Enquanto rezavam a eternidade de padre-nossos e ave-marias, adicionava pitada de ornatos vegetalistas, a simular umas silvas, e uma “cruz do meio”, esta com a finalidade de repelir o mau-olhado, abrenúncio. Quedava obra capaz de jungir qualquer senhor de Braga…, coruscando ao sol-pôr, entre chorrilhos de encómios. Salve! Salve!
 
    O substantivo canga virá do céltico «cambica», «madeira curva», e daí para o latim «canica», onde entrou por glórias antigas nas línguas latino-românicas. Outros linguistas dizem, do alto da sua sapiência, que do adjectivo latino «canicus» (< «canis», «cão») e da sua forma feminina «canica», para descrever a peculiar cópula do casal canino, «colligatio canis cum femina», por causa da minudência desses animais ficarem agarrados, se formou, por analogia, o substantivo.
 
    Seja como for, a palavra portuguesa está documentada em 1308: «… e que lhes descangava as casas das cangas, que sobre ellas jaziam, e que nom podia homẽ guarecer no herdamento».
 
    Um dia diremos dos cangalhos, que se distinguem pela forma mais simplista. Por ora chega de canga, embora seja mais leve do que àquela que, à viva força e desde o tempo da Galileia, querem albardar no nosso manso cachaço, para regular esta servil e dócil autocracia, donde devemos chispar como o dianho foge da cruz.

Esquema das furas, ensogadouras, camalhões, deitada e piarças duma canga de bois

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 21:40
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

UMAS JANEIRAS CANTADAS NA DÉCADA DE 1950

   O costume dos cantares de Janeiras perde-se na História, com uma origem marcadamente pagã radicada na antiga festa realizada em honra de Jano, o deus das portas celestes.

                                

    Uma divindade antiquíssima representado com uma cabeça de duas faces, uma vara numa mão e na outra uma chave, tudo se abria e fechava à sua passagem, de quem se esperava especial protecção nas partidas e no regresso.

                                         

    Uma divindade de dois rostos para exercer o poder no céu e na terra. Era dos primeiros a ser evocado no cerimonial religioso na medida em que presidia às portas, entradas e caminhos, mas também por ser através dele que as preces humanas chegavam ao concílio dos deuses na mitologia romana.

                                   

    Visto Jano presidir ao começo de tudo, como deus dos princípios, o primeiro mês do ano foi-lhe consagrado, januarius, daí Janeiro.

                                 

    Assim, no primeiro dia de Janeiro, na antiguidade romana comemorava-se a “Strenua Calendaria”, ocasião em que o povo romano festejava com particular fervor, saudando-se efusivamente uns aos outros, ao mesmo tempo que saltitava de casa em casa, cantando loas ao som de buzinas, trocando e ofertando dádivas.

             

    Como a Igreja não conseguiu erradicar este bárbaro costume idólatra, o Concílio de Trours, realizado no século VI, determinou que nesse dia fosse celebrado a circuncisão de Jesus Cristo, mas o que perdurou até hoje foi, essencialmente, a base festiva pagã que o cristianismo não conseguiu erradicar.

                    

    Em tempos idos, por toda região do Alto Minho, ao cair da noite do primeiro dia de Janeiro, um grupo de rapazes foliões, percorria as casas e os caminhos, cantado lérias de porta em porta a par de algumas cantigas ao Menino Deus, mas também e primordialmente para pedirem as boas-festas, um hábito deveras enraizado.

      

    Vários instrumentos rústicos faziam o incipiente acompanhamento musical, como os ferrinhos, a rela, o pandeiro, a sarronca e a sanfona, que arrancavam uns uivos sonoros.

            

   Durante o mês de Dezembro o grupo de rapazio procedia a alguns ensaios, pois a noite em causa seria fria e era preciso não perder tempo, para que tudo ficasse afinado e expedito, na medida do possível.

         

    Ensaiavam as quadras, geralmente para cantar os méritos dos donos da casa, fazendo distinção individual a cada membro, o dono, a dona, os filhos e as filhas. Ora cantavam em coro ou cantorias a solo.

              

    Escolhiam para alvo dilecto as casas de lavradores mais abastados, com o fito de cativarem os moradores e conseguirem algum donativo, quase sempre comida para lambarar, por vezes em dinheiro e até, milagrosamente, algumas porções de fumeiro, um maná, que era repartido pela trupe em partes iguais.

 

    As Janeiras perduravam toda a semana até por vezes confundiam-se com o “Cantar de Reis”, para celebrar os Reis Magos.

            

    Hoje recordo aqui umas Janeiras cantadas em Padornelo na década de 1950 aos meus avós António Inocêncio Alves e Especiosa de Jesus Alves Monteiro, do lugar das Angústias.

 

Janeiras cantadas ao dono da casa

 

Boa noite, patrão da casa,

Faz favor de desculpar;

Se o senhor nos der licença,

As Janeiras vamos cantar.

 

Viva lá senhor António

Usa o seu chapéu direito;

Quando vai pela rua fora

Todos lhe guardam respeito.

 

E viva o senhor da casa,

Vá abrir a garrafeira;

E diga à sua esposa

Que incerte a salgadeira.

 

Viva o senhor destas leiras

No seu banquinho de prata;

Venha dar-nos as Janeiras

Que está um frio que mata.

 

Para a dona da casa

 

Viva a senhora de tal

Ó linda rosa encarnada;

Levante-se e venha ao portal

Dai janeira avantajada.

 

Viva lá senhora Especiosa

Muito lhe diz o seu véu;

Quando vai igreja acima

Parece um anjo do céu.

 

Viva a senhora de brilhos

Capa branca de setim;

Ao lado dos seus filhos,

É um ramo de jardim.

 

Viva a senhora de verdade

Santinha de Belém;

Deus lhe dê felicidade

E aos seus filhos também.

 

Geral, de agradecimento e pedido

 

Viva o chefe de família

E sua esposa também;

E ao lado vossos filhos

Que Jesus os fade bem.

 

Ainda agora chegamos

Já pus o pé na escada;

Logo o coração disse

Aqui mora gente honrada.

 

Levante-se minha senhora

Desse banco de cortiça;

Venha-nos dar as Janeiras

Ou morcela ou chouriça.

 

Nós estamos fora da porta

Como o molhinho de lenha;

À espera da resposta

Que de sua boca venha.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:28
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

NATAL TRADICIONAL NO ALTO MINHO

Como Era Antigamente

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

                                                                           

    O Natal começava quando os mais velhos do agregado familiar incumbiam a pequenada, de olho fino, da ida à bouça na procura de matéria-prima a fim de ser construído o presépio.

 Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                                                                          

    Eis o ansiado pontapé de saída para uma áurea festiva. Trazia-se musgo às postas, pedrinhas talhadas a foice, pinhas ao sacolejo e um pinheirinho, ou ramada de pinheiro, que a época não era soberba de desperdícios e consumos de espavento.

                                                                               

    Num canto predefinido da casa, construía-se uma autêntica aldeia em miniatura, povoada de figurinhas, a gruta, o menino conchegado nas palhinhas, debaixo do bafo do burro e da vaca ramalhuda.

                                                                                             

    Um empreendimento de monta e de quantas criaturas cabiam no imaginário que abraçava o Mundo, onde não faltavam os terríveis herodes da matança, os pastores e os Reis Magos a peregrinar pelo nosso presépio adentro, tal como nos trilhos de Ceca e Meca.

                                                                      

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

 Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                 

    Na mesa, a matriarca colocava a luzidia toalha de linho, uma preciosidade herdada dos avoengos, de par com a melhor loiça e talheres de “ver a Deus” usados quando o rei fazia anos e nas ocasiões especiais, o resto do tempo sempre aferrolhados como um tesouro moiro nas profundezas da arca.

                                                                                                     

    Enfeites de sala, composto por ramos de azevinho davam um ar folião e convidativo à austera habitação. Venha o resto, a comidinha, que era de supina importância, e capaz de saciar a fome de lobo esfaimado.

                                                                                                                                            

    O bacalhau “do alto” tinha – e ainda tem – o estatuto de rei e presença insubstituível na Consoada, acompanhado de batatas e couve penca curtida da geada. Devidamente banhado de azeite de estalo para nele molhar o pão, manjar dos deuses, como se fazia antes da Europa nos afiançar que era um tudo-nada anti-higiénico e boçal.

                                                                                                              

    Nas casas de maior basteza, onde a folgança permitia fazer de boi tendo tão-só pata de carneiro, havia o segundo prato, o polvo seco cozido, ou arroz de polvo como confeccionava a minha santa mãezinha – a avó, como dizíamos antigamente no Minho –, comprado na feira de Paredes de Coura.

                                                                                                                         

    Isto, substancialmente bem regado com o tradicional “Vinho Quente”, uma saborosa mistela de verde tinto fervido com gemas, melaço, canela e, nas casas mais abastadas, apaparicado com uma porção de “vinho fino” – como naquelas eras se chamava ao vinho do Porto ou Moscatel.

                                                                                           

    De fazer cantar os anjos lá na corte celestial, para os mais velhos, claro, que a canalha pequena bebia pirolitos.

                                                                                               

    Compunha a mesa o arroz-doce e as rabanadas minhotas, umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas, ou as simples fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar.

                                                                             

    E demais iguarias dispersas a preceito, figos, passas, pinhões e nozes. Pitéus dignos dum faraó, comparada com a pobreza franciscana e frugalidade do restante ano, mesmo para os lavradores abastados. Corria o vinho do melhor pipo, de pintar as malgas com as mais vivas cores da folia e comes e bebes de príncipe.

                                               

    Nas horas mortas que antecediam a Missa do Galo, à volta da lareira onde o “Canhoto de Natal” tinha a sacrossanta missão de arder toda a noite, brincava-se seriamente ao “rapa-tira-deixa e põe”, um jogo de pinhões, enquanto os adultos jogavam às cartas, ou recordavam os familiares e historietas de levantar os cabelos.

Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                    

    A função de escolher o madeiro de carvalho para a lareira cabia ao pai e filho mais velho. Diziam as minhas santas avós, naquela sabedoria popular e milenar, que o fumo e as cinzas do “Canhoto de Natal” tinham a utilidade miraculosa de afastar as faíscas e trovoadas, um pára-raios campestre, além de propriedades terapêuticas aplicadas em certas doenças, mas para tal ocorrer deveria arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

                                                                                     

    O poviléu atravessava a aldeia em direitura à igreja matriz para ouvir a vigília jubilosa da meia-noite e beijar a imagem do Deus Menino, quebrantando a escuridão cerrada dos caminhos com umas lumieiras feitas de palhas ou lampiões de azeite que abriam uma trémula claridade na treva de breu.

                                                                                     

    A mesa, com os seus restos alimentares, não podia ser levantada sob pretexto algum, repousava farta toda a noite para alimentar e aquecer as alminhas, que no entender douto dos avós, ali vinham saciar-se a contracompasso, enquanto a família curava o sono.

                                                                              

    Na ressaca da festança, manhã seguinte, a criançada acordava com as galinhas, mal rompia a madrugada, para saltear a lareira onde jaziam as prendas, modestas se comparadas com o pretensiosismo actual, porém inegavelmente mais valiosas naquela época de privação e vacas magríssimas, num tempo em que o Pai Natal não entrava pelas chaminés do Minho e os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus.

                                                                                      

    No pinheiro, a fazer crescer baba na boca como água-benta, alguns chocolates – do chocolate preto de Viana – mercados na feira de Padornelo e pendurados por cordel faziam esbugalhar o desejo para além do limite da gula.

                                                                               

    Ao almoço do dia 25 de Dezembro – que naquele torrão de tranquilidade se chamava então jantar –, comia-se a “roupa velha”, uma delícia que ainda hoje adoro, feita com as sobras da lauta consoada.

                                                                                                             

    Para compor o prato principal da janta, a Ceia de Natal, matava-se o melhor galo da capoeira, acompanhado de arroz de pica no chão e chouriço de carne, um manjar que murmurava pelo mais cândido estômago.

                                                               

    Apesar da ventania de mudança que varre o limbo da sociedade, ainda perduram algumas destas resistentes tradições vindas dos confins da memória dos tempos.

                                        

    Desapareceu por completo a Missa do Galo, o Menino Jesus foi substituído pelo amorfo Pai Natal (parece que vem aí uma sexuada Mãe Natal...), o presépio em estado de paralisia peleja com a Árvore de Natal, o Vinho Quente descaiu no esquecimento do paladar, o Canhoto de Natal foi trocado pelos aquecedores, e até as próprias prendas são entregues na noite de 24 de Dezembro, à revelia dos preceitos do uso antigo.

                                             

    Foram introduzidos o bolo-rei e mais gulodices, o horrendo peru e outras modernices importadas a mata-cavalos e contranatura.

Fotografia de Eduardo Daniel Cerqueira                                                                                                 

    Agora comprámos num hipermercado um falso conceito de felicidade às toneladas ao consumir em quantidades astronómicas todo o género de inutilidades.

                                                           

    O Natal no Minho rural de antanho, festim mais comedido e frugal, embora fosse uma festa por excelência, não tinha a euforia consumista e pantagruélica de agora.

                                                                                             

    Mas era, acima de tudo, um tempo alumiado de felicidade divinal, onde a alma coexistia com o estômago, numa ternura florescente. E que saudades tenho desse tempo e dessa ventura...

                                                                                                

    Mas desta ou daquela maneira, continua a ser a festa de harmonia. A Consoada e Ceia de Natal tinham algo de mítico, sublinhado pelo simbolismo duma sentida paz caseira. Marcava o epicentro da festa familiar, na plenitude das suas tradições e manifestação intensa de alegria íntima.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 08:28
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

NATAL TRADICIONAL NO ALTO MINHO

Como Era Antigamente

 

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    O Natal começava quando os mais velhos do agregado familiar incumbiam a pequenada de olho fino da ida à bouça, na procura de matéria-prima a fim de ser construído o presépio.

        

    Eis o ansiado pontapé de saída para uma áurea festiva. Trazia-se musgo às postas, pedrinhas talhadas a foice, pinhas ao sacolejo e um pinheirinho, ou ramada de pinheiro, que a época não era soberba de desperdícios e consumos de espavento.

 

    Num canto predefinido da casa, construía-se uma autêntica aldeia em miniatura, povoada de figurinhas, a gruta, o menino conchegado nas palhinhas, debaixo do bafo do burro e da vaca ramalhuda.

             

    Um empreendimento de monta e de quantas criaturas cabiam no imaginário que abraçava o Mundo, onde não faltavam os terríveis herodes da matança, os pastores e os Reis Magos a peregrinar pelo nosso presépio adentro, tal como nos trilhos de Ceca e Meca.

 

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

 

    Na mesa, a matriarca colocava a luzidia toalha de linho, uma preciosidade herdada dos avoengos, de par com a melhor loiça e talheres de “ver a Deus” usados quando o rei fazia anos e nas ocasiões especiais, o resto do tempo sempre aferrolhados como um tesouro moiro nas profundezas da arca.

 

    Enfeites de sala, composto por ramos de azevinho davam um ar folião e convidativo à austera habitação. Venha o resto, a comidinha, que era de supina importância, e capaz de saciar a fome de lobo esfaimado.

 

    O bacalhau “do alto” tinha – e ainda tem – o estatuto de rei e presença insubstituível na Consoada, acompanhado de batatas e couve penca curtida da geada.

 

    Devidamente banhado de azeite de estalo para nele molhar o pão, como se fazia antes da Europa nos afiançar que era um tudo-nada anti-higiénico e boçal.

                  

    Nas casas de maior basteza, onde a folgança permitia fazer de boi tendo tão-só pata de carneiro, havia o segundo prato, o polvo seco cozido, ou arroz de polvo como confeccionava a minha santa avó, comprado na feira de Paredes de Coura.

          

    Isto, substancialmente bem regado com o tradicional “Vinho Quente”, uma saborosa mistela de verde tinto fervido com gemas, melaço, canela e, nas casas mais abastadas, apaparicado com uma porção de “vinho fino” – como naquelas eras se chamava ao vinho do Porto ou Moscatel.

 

    De fazer cantar os anjos lá na corte celestial, para os mais velhos, claro, que a canalha pequena bebia pirolitos. Compunha a mesa o arroz-doce e as rabanadas minhotas, umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas, ou as simples fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar.

 

    E demais iguarias dispersas a preceito, figos, passas, pinhões e nozes. Pitéus dignos dum faraó, comparada com a pobreza franciscana e frugalidade do restante ano, mesmo para os lavradores abastados. Corria o vinho do melhor pipo, de pintar as malgas com as mais vivas cores da folia e comes e bebes de príncipe.

 

    Nas horas mortas que antecediam a Missa do Galo, à volta da lareira onde o “canhoto de Natal” tinha a sacrossanta missão de arder toda a noite, brincava-se seriamente ao “rapa-tira-deixa e põe”, um jogo de pinhões, enquanto os adultos jogavam às cartas, ou recordavam os familiares e historietas de levantar os cabelos.

 

    A função de escolher o madeiro de carvalho para a lareira cabia ao pai e filho mais velho. Diziam as minhas avós que o fumo e as cinzas do “canhoto de Natal” tinham a utilidade miraculosa de afastar as faíscas e trovoadas, um pára-raios campestre, além de propriedades terapêuticas aplicadas em certas doenças, mas para tal ocorrer deveria arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

 

    O poviléu atravessava a aldeia em direitura à igreja matriz para ouvir a vigília jubilosa da meia-noite e beijar a imagem do Deus Menino, quebrantando a escuridão cerrada dos caminhos com umas lumieiras feitas de palhas ou lampiões de azeite que abriam uma trémula claridade na treva de breu.

 

    A mesa, com os seus restos alimentares, não podia ser levantada sob pretexto algum, repousava farta toda a noite para alimentar e aquecer as alminhas, que no entender douto dos avós, ali vinham saciar-se a contracompasso, enquanto a família curava o sono.

 

    Na ressaca da festança, manhã seguinte, a criançada acordava com as galinhas, mal rompia a madrugada, para saltear a lareira onde jaziam as prendas, modestas se comparadas com o pretensiosismo actual, porém inegavelmente mais valiosas naquela época de privação e vacas magríssimas, num tempo em que o Pai Natal não entrava pelas chaminés do Minho e os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus.

 

    No pinheiro, a fazer crescer baba na boca como água-benta, alguns chocolates – do chocolate preto de Viana – mercados na feira de Padornelo e pendurados por cordel faziam esbugalhar o desejo para além do limite da gula.

 

    Ao almoço do dia 25 de Dezembro – que naquele torrão de tranquilidade se chamava então jantar –, comia-se a “roupa velha”, uma delícia que ainda hoje adoro, feita com as sobras da lauta consoada.

 

    Para compor o prato principal da janta, a Ceia de Natal, matava-se o melhor galo da capoeira, acompanhado de arroz de pica no chão e chouriço de carne, um manjar que murmurava pelo mais cândido estômago.

 

    Apesar da ventania de mudança que varre o limbo da sociedade, ainda perduram algumas destas resistentes tradições vindas dos confins da memória dos tempos.

 

    Desapareceu por completo a Missa do Galo, o Menino Jesus foi substituído pelo amorfo Pai Natal (parece que vem aí uma sexuada Mãe Natal...), o presépio em estado de paralisia peleja com a Árvore de Natal, o Vinho Quente descaiu no esquecimento do paladar, o Canhoto de Natal foi trocado pelos aquecedores, e até as próprias prendas são entregues na noite de 24 de Dezembro, à revelia dos preceitos do uso antigo.

 

    Foi introduzido o bolo-rei e mais gulodices, o horrendo peru e outras modernices importadas. Comprámos num hipermercado um falso conceito de felicidade às toneladas ao consumir em quantidades astronómicas todo o género de inutilidades.

 

    O Natal no Minho rural de antanho, festim mais comedido e frugal, embora fosse uma festa por excelência, não tinha a euforia consumista e pantagruélica de agora.

 

    Mas desta ou daquela maneira, continua a ser a festa de harmonia. A Consoada e Ceia de Natal tinham algo de mítico, sublinhado pelo simbolismo duma sentida paz caseira. Marcava o epicentro da festa familiar, na plenitude das suas tradições e manifestação intensa de alegria íntima.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 17:07
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2006

Costumes de Tempos Idos: O Ritual da Cozedura do Pão

cozinheiro09[1].gif

    A fornada ou acto de cozer pão obedecia a um ritual próprio, hoje um pouco esquecido. A masseira onde ia repousar o pão já amassado era previamente limpa para ficar sem nenhum vestígio das anteriores cozeduras, porque assim o pão podia ressuar.

 

    Na lareira era colocada água nos potes para aquecer. No caso do pão de mistura, fazia-se a boroa na proporção de um alqueire de farinha de milho para um quarto de farinha de centeio.

 

    Trazida a farinha do moinho, a dona da casa benzia-a previamente e nela abre-se um buraco onde se vai deitando aos poucos a água a ferver, e ao mesmo tempo vai-se mexendo, envolvendo a água e a farinha com uma pá de madeira, até atingir determinado contexto e estar toda molhada.

 

    De seguida começa-se a amassar a massa à força de braços, depois de se lhe juntar o fermento, uma porção calculada em função da massa da cozedura.

 

    Depois de bem amassada, termina-se fazendo no final uma cruz desenhada com um dedo ou com a pá, a qual de seguida fica a levedar num canto da masseira, durante cerca de duas horas.

 

    A cruz, um conceito ritualizado, servia «para que levede melhor». Nessa altura, nenhuma peça de vestuário masculino se podia colocar em cima da masseira, pois o pão nunca mais levedava.

 

    De seguida vai-se aquecer o forno, usando caruma de pinheiro, e as brasas são espalhadas no interior do forno para dar uma temperatura igual e constante, usando-se para tal uma vara comprida, chamada o sarriscadouro.

 

    Em muitas casas fazia-se na lareira o bolo do tacho, numa frigideira com azeite, na qual se deita alguma massa em forma de bolos, nos quais se fazem buracos com o dedo mendinho para fritar mais depressa.

 

    Aquecido o forno e já com a massa levedada, varria-se o forno com uma vassoura de giesta ou de codessos, e ainda por vezes era limpo com um novelo de farrapos envolvidos na ponta dum pau, o chamado varredouro.

 

    Depois passava-se para a massa, da qual é retirada uma certa porção que se coloca numa gamela de madeira e sobre ela faz-se uma cruz e deita-se umas pedras de sal, para o diabo não entrar nele, e guarda-se até à próxima cozedura.

 

    Numa grande gamela de madeira de pinho, começa-se a padejar o pão, fazendo-se boroas, as quais soão introduzidas no forno com uma pá redonda de pinho.

 

    Ao deitarem as boroas dentro do forno previamente aquecido, dizia-se as seguintes orações:

 

Deus de acrescente

Dento de forno,

E fora do forno

E a quem te comer.

 

    Cumprido mais este ritual a porta do forno era tapada com bosta fresca e não com barro, porquanto se acredita que deste modo o pão coze melhor, e aguarda-se o tempo que a experiência milenar de então sabia ser necessário para cozer o pão.

 

    Outros acreditam que a bosta, que se via buscar à corte ou pelos caminhos, transmite ao pão um gosto especial e melhor qualidade.

          

    Depois da porta aberta, bate-se três pancadas com a pá em cima do pão, para o acordar, tira-se para fora e colocam-se as boroas em cima da masseira para arrefecer, findo o que guarda-se o pão, que deve durar uma semana.

     

Forno para cozer a boroa.

  

Abertura do forno.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 20:25
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Domingo, 25 de Dezembro de 2005

Costumes de Tempos Idos: Filhoses

bolo08[1].gif  Lareira.gif

   

 

 

 

 

 

    Doce caseiro que povoa a minha adolescência, graças à querida Tia Glória Alves, da Feteira. Calma, sei que a Feteira fica já na freguesia de Paredes de Coura, mas convém lembrar que a tia Glória Alves e o seu marido Gabriel Pereira Rodrigues, o saudoso “tio Gabriel”, viveram na Valinha, lugar de Padornelo, entre 1926 a 1942.

 

    Portanto têm direito a constar aqui. Mas muito me lembra de ver fazer e comer as filhoses que a tia Glória preparava como ninguém, no meu entender de comensal, um verdadeiro manjar dos deuses, naquela sua infinita bondade, e com o sublime toque de sapiência.

 

    Fazia-as a santa velhinha com farinha trigo e leite, e usava uma pedra já escavada pelo uso, que a punha a aquecer ao lume, e que creio que, para além do segredo e do amor que a tia Glória as fazia, era a pedra que lhe dava um gostinho especial e maravilhoso, gosto jamais igualado em qualquer outro pitéu, por ser uma verdadeira preciosidade.

 

    As filhoses servem-se frias e polvilhadas com açúcar e um pouco de canela.

 

    Algumas noções de filologia: filhó vem do termo latino filiola, cujo plural é filhós, embora filhoses se tenha vulgarizado.

 

 

sinonatal17.gif

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 03:56
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Domingo, 20 de Novembro de 2005

Costumes de Tempos Idos - A Matança do Porco: Memória Social

porco.gif 

 

 

 

 

 

 

    A matança era uma das mais significativas festas de família, o que se compreende na medida em que a carne de porco e a batata eram a base essencial da alimentação e a auto-suficiência permitia viver sem excessivo recurso ao exterior.

 

    Matava-se tantos mais porcos quanto o estatuto social e a condição financeira o permitiam: a riqueza avaliava-se pelo número de porcos que se matava.

 

    A carne era racionada de modo a durar todo o ano, até á próxima matança, os untos e pingos, constituem uma preciosa reserva que substituiu o azeite.

 

    Os porcos eram criados e alimentados com refeições à base de batata, milho, legumes e o farelo, e viviam nas cortes, os baixios da casa de moradia da família.

 

    A matança tinha lugar no Inverno, altura em que as actividades agrícolas estão reduzidas ao mínimo e a temperatura fria permitia a sua conservação. O dia da matança, para além dum específico cerimonial, era um autêntico dia de festa, para alguns mais um pretexto de comezaina, num ambiente de folia e de aproximação ritual da família e da comunidade.

 

    A matança resulta, assim, da conjugação de muitos e distintos factores, e desempenha uma função social relevante nas comunidades rurais, fortemente estruturada e rica de tradições.

 

    Estão presentes para além do agregado familiar e da equipa de trabalho, os convidados da esfera aldeã, amigos, parentes, residentes noutras localidades, formando grupos elevados, que determinam o número de comensais. As facas, alguidares, a meda de palha, o banco são preparativos essenciais para a operação, para além das pessoas.

 

    Tudo começa com o ritual de «matar o bicho» com aguardente, boroa, figos, chouriço e vinho tinto. Na cozinha afadigam-se com os potes ao lume, com o descascar das batatas.

 

    O matador, um perito de reconhecida fama, conduz o bicho para cima dum banco, e com um golpe profundo por baixo do pescoço consuma a morte e o sangramento, que é amparado nos alguidares. De seguida é chamuscado, segue-se a lavagem para o que se usa instrumentos de raspagem, água e por vezes sabão.

 

    Concluída esta, começa a abertura, sendo pendurado com a cabeça para baixo, para se tirar o couracho, o subventre, o unto, o fígado, os rins, o coração, a buchada, as tripas.

 

    A tradição impunha uma refeição de trabalho festiva no dia da matança de proporções mais amplas e intenso significado, constituída pelos produtos perecíveis, como o sangue, fígado, pulmões, e carne salgada de porco velho.

 

    As relações sociais quotidianas impunham a redistribuição pelas casas dos amigos e vizinhos que não foram convidados ou mais carenciados, ou a casas que anteriormente tiveram a mesma amabilidade, onde se dá bocados crus de carne, pedaços de fígado, o chamado presente, uma prática de levar um prato de carne de porco nova, sempre recoberto de um pano, tarefas de que eram encarregues os mais novos.

 

    No dia seguinte tem lugar a desmancha da carcaça, quase sempre 24 horas depois do porco morto, as carnes repartidas e salgadas, e depois postas ao fumo. Fazem-se os chouriços e demais fumeiros, aproveitando as tripas previamente bem lavadas e cortadas segundos tamanhos convencionais.

 

    As chouriças são postas por cima da lareira em paus delgados, e são curados durante 3 ou 4 semanas, com uma cura condigna com a qualidade desejada.

 

    Nos dias seguintes pela aldeia, outras matanças se fazem, e como os convites são retribuídos, ninguém falta, a festa ritualizada e simbólica contínua.

 

    Hoje menos, é verdade, fruto das contingências da vida moderna, imposições e regras vindas da Europa, tendem a submergir e a desagregar a acção identitária comunitária. Ainda resistimos, sabe-se lá por quanto tempo. E a matança do porco como espaço social faz parte da nossa riqueza patrimonial.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 22:17
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