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PADORNELO

Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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04
Jan08

O EPISÓDIO DA BENTA DE PADORNELO NA OBRA «A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES»

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Em Julho de 1957 Aquilino dava à estampa A Casa Grande de Romarigães, um marco de maturidade e porventura o livro ímpar na História da Literatura do século XX, um monumental fresco que se desenrola em terras de Coura.

                           

    A obra, ágil, vertiginosa e deliciosa, retrata de forma esplendorosa as vicissitudes e o evoluir das gerações duma família fidalga através dos séculos, com uma perícia soberba e narrativa fulgurante, verdadeira obra-prima dum magistral escritor, na sua estilística muito peculiar.

 

    O centro da trama é a Casa do Amparo, na freguesia de Romarigães, mas a obra serpenteia e abraça prenhe diversas aldeias e terrinhas courenses, aqui e ali sempre com vénia pictórica. Entre elas, citada várias vezes, vemos referências consubstanciadas à freguesia de Padornelo. Venha comigo para saber como.

 

    Histórica e documentalmente o dr. Fernando Luís de Antas de Mendonça e Azevedo, 5.º Senhor da Casa do Amparo, casou em 1726 com D. Joana Angélica Marinho do Amaral. Decorridos três anos nascia o primogénito e herdeiro, ficando assegurada a imprescindível sucessão e continuidade da casa. Eis a verdade dos factos.

 

    Mas na sua crónica romanceada Aquilina fabula. No enredo, volvidos anos de casório o estéril casal desespera, apesar de felizardos, «um espinho manifestamente os pungia: não ter filhos». D. Joana, idade de matrona, o malfazejo relógio biológico avança desabaladamente, toma toda a espécie de panaceia e «ervas miraculosas».

 

    Nanja, era necessário um milagre, e por aquelas brenhas visigóticas, milagreira de ciência certa, encartada com resultados bastos como pinheiros, somente «a benta de Padornelo, por uns tida como mulher de virtude, por outros como bruxa e baldorneira de baixo coturno».

 

    Como não engravidada de modo algum, nem com abençoadas missas de rogo, mal despontou a Primavera, ao colo dum raio de sol e esperança, lá foi a morgada de abalada até Padornelo a fim de tomar alvedrio e mezinha com a tal “mulher de virtude”. Esta, ouvida a desgraça que a esmagava, do alto da sua sapiência decretou taxativa.

 

    O remédio infalível para «gerar o herdeiro» almejado dependia numa romaria a Santa Justa, em S. Pedro de Arcos, no concelho de Ponte de Lima, acrescentando lampeira com recados particulares dirigidos ao ouvido de D. Joana Angélica: tinha que «ir à festa com teu esposo e dormir com ele debaixo duma giesteira que esteja ainda a deitar flor». O segredo, porém, estava na janta que na véspera devia ser servida ao marido, uma mistela de caldo de nozes de sapucaia, que «vendem-se na botica».

 

    E acrescentava, para apaziguar espíritos pudicos e ouvidos sensíveis de damas fidalgas pouco atreitas a devaneios amorosos ao relento: «não te espantes do que vires ou ouvires à tua volta. Olha que vai lá muita gente para o mesmo fim». A cena deveria fazer corar de vergonha o nazareno.

 

    A benzedeira de Padornelo, mulher de sete ofícios e sábia defensora dos interesses da corte dos santos, impôs o tributo necessário: «oferecer à virgem miraculosa Santa Justa um casal de frangos brancos [...] que tanto o galispo como a franga não hão-de ter conhecido galadura».

 

    Era de monta o sacrifício para obter a divina graça, a exigir dares e tomares: caldo de jacapucaio, romaria a Santa Justa do Monte, cópula carnal ao léu, um punhado de sal, escassas moedas e dois franganotes virgens! Resignado, Fernando Luís de Antas de Mendonça, curvou-se diante da imposição, tal era a ânsia de procriar o desejado herdeiro: «se o remédio é esse, filho tem a prima».

 

    Em Julho de 1728, lá vão a trouxe-mouxe em direitura a Santa Justa do Monte de Arcos, escoltados por um merendeiro de estalo, mais o capelão da casa, a criadagem indispensável, raparigas com adufes e um rapazote a rufar «um tambor endiabrado». Por caminhos «tortuosos e estreitos como barbantes» vinha ali desaguar gentalha «da Ribeira-Lima, das terras de Coura e de Vez» a fim de «cumprir um voto, que remontava a tempos imemoriais».

 

    A descrição da romaria em louvor a Santa Justa é verdadeiramente sublime, uma alegoria, cuja leitura se recomenda vivamente ao leitor mais entusiasta, talvez a melhor página da literatura portuguesa da centúria de novecentos.

 

    Os morgados da Casa do Amparo cumpriram o ritual da «procissão arcaica», finda a qual «homens e mulheres embrenharam-se aos pares pelo giestal em flor», não sem antes depositarem aos pés da santa o casal de galináceos brancos.

       

     Mais uma reza fervorosa, a alma purificada é necessária para toda a casta de favores do céu, e ei-los sorrateiros pelo mato de giesta adentro, até «ao sítio onde as escravas lhes haviam feito a cama», tálamo para o «delírio amoroso».

 

    Encoberto no plenilúnio, troava uma orquestra de altíssimos «suspiros e gemidos», e ali mesmo ao lado, «uma mulher chiava como pucarinha cheia de água quando começa a aquecer ao lume».

                

    D. Joana, imersa na tarefa hercúlea de conceber um sucessor, precavida, «fechava os olhos e tapava os ouvidos», arrolhava em vão todos os sentidos, tamanha era a gemedeira dos corpos entrelaçados num festim. Insistia, persistia e entregava-se toda, em nome do sacro desejo absoluto, não havia ali pecado da carne, tal como «a prevenira a benta de Padornelo que era preciso cumprir o voto».

 

    Aquilino afirma peremptório que o tal filho cobiçado, «não lho trouxeram as cegonhas», porém os historiadores e genealogistas sabem que o casal teve descendência para perpetuar o morgadio e a linhagem, dois varões e uma menina. Prova provada da alta eficácia da benta mulher, que soubera congeminar receita tão atilada como as deusas da fertilidade de antanho. A condizer com o seu elevado estatuto e vasta clientela.

 

    O romance tem outras alusões ao povoado padornelense e até à sua feira dos Tojais. A páginas tantas tropeçamos numa curiosa reflexão acerca do milho, «a segunda Divina Providência do minhoto», dito na boca duma das personagens:

           

«Não me meçam as rendas antes de Maio. Até Maio, o milho está prenho. Deita leite. Para estar bom é preciso que absorva a humidade como o papel mata-borrão absorve a tinta. O abade de Padornelo é que a sabia toda. Pegava nos butes molhados, metia-os entre as espigas. Se de manhã os encontrava enxutos, estava em condições de se malhar».

 

    Quem seria o tão erudito reverendo, doutíssimo na tripla questão do milho, tamancos e humidade? Pela cronologia evolutiva aparente da obra, estou em crer tratar-se do abade Casimiro Rodrigues de Sá, celebrado pároco colado da matriz de Santa Marinha de Padornelo entre 1902 e 1922.

 

    Mestre Aquilino, artesão das letras, estatura de excepcional relevo intelectual e literário, manteve pela vida fora o gosto pela proximidade emocional ao mundo rural, que adora com veneração, alicerçado numa linguagem pura e vernácula, de características muito próprias.

                         

    Por isso, Paredes de Coura foi uma incidência marcante na sua temática riquíssima, paixão pelo pitoresco, amor à liberdade e empenho humanista. E as frequentíssimas menções a Padornelo um motivo de agrado acrescido.

 

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