Por: Jofre de Lima Monteiro Alves
«Eis o homem», célebre frase que Pôncios Pilatos pronunciou ao apresentar Cristo perante os judeus, após a flagelação. E depois lavou as mãos, claro.
Tornou-se tema constante na devoção cristã e frequentemente representada na iconografia a partir do século XV, vulgarmente representado açoitado, atado, coroado de espinhos, com um manto de púrpura e, a servir de ceptro, empunha uma cana.
Notável é o quadro vulgarmente chamado Ecce Homo da Escola Portuguesa do século XV, depositado no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
Vamos, para já, tratar de duas questões, a primeira relacionada com a sua correcta dicção, mais delicada, na medida em que subsistem pelo menos três hipóteses fonéticas.
A pronúncia eclesiástica, usada pelo clero, mais próxima da língua italiana, para quem “ecce” soa “etche”.
A fala tradicional, usada pelos linguistas que a partir do pressuposto daquilo que se pensa ter sido a sua pronúncia nas línguas românicas na Idade Média, para quem “ecce” lê-se precisamente como se escreve, isto é, com “C”.
Outros estudiosos defendem, na chamada prolação restaurada, que no latim clássico de há 2000 anos, a consoante de “ecce”, de acordo com o seu valor, seria pronunciada como gutural, com o som “Q”.
O segundo problema diz respeito à grafia, onde me parece que durante séculos não houve lugar a qualquer dúvida. Mas recentemente, em jornais e placas de toponímia, surgiu a moda absurda de escrevinhar ECCE-HOMO (com hífen), deslize que se não for atalhado a tempo, ficará para o futuro como verdade absoluta.
Mas não é, porquanto tal ortografia é literalmente abusiva e incorrecção malfeita. Em «Ecce Homo» temos uma locução latina, e no latim clássico ou medieval não existia o hífen, logo a palavra escreve-se separada.
Se o caro leitor se dá por satisfeito e provado, pode ir à sua vidinha. Mas, se ao invés, tem ares de céptico S. Tomé, aqui vão umas migalhas de abonação colhidas nas melhores cepas dos linguistas.
Venha comigo abrir a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, da década de 1950, para consultar o verbete ECCE HOMO, no volume IX, p. 388.
O mesmo, sempre Ecce Homo, na “Lexicoteca: Moderna Enciclopédia Universal”, vol. VII, 1985, p. 84. Vou à estante e trago também o “Dicionário da Língua Portuguesa”, 5.ª edição, de 1976, no suplemento das “Palavras e Locuções Estrangeiras”, folheamos a p. 1534, donde cito: «Ecce homo, eis o homem. Palavras de Pilatos ao apresentar Cristo coroado de espinhos».
Pelo canto do olho, avisto alguém a retorcer o nariz. Talvez seja da gripe das galinhas ou algum martirizado na dúvida imanente de Nossa Senhora do Sameiro, pelo sim pelo não, socorro-me de exemplos mais recentes.
Vou a Braga buscar o programa da “Quaresma e Solenidades da Semana Santa de 2008”, adonde consta a Procissão do Senhor Ecce Homo que se realizou a 20 de Março deste ano (http://www.semanasantabraga.com/content.asp?startAt=4&categoryID=1409).
Apresento mais uma prova irrefutável, o parecer científico da erudita Sociedade da Língua Portuguesa, da qual sou associado, e a resposta que em 20 de Julho de 2007 me deu o dr. Gonçalo Neves, tradutor, especialista em interlinguística e lexicógrafo:
«Não há nada que justifique esta alteração ortográfica na placa toponímica da capela de Padornelo. A grafia correcta é Ecce homo (como está na Vulgata) ou Ecce Homo (pelo respeito que infunde a figura em questão), mas sempre sem hífen.
Julgo que este erro pode ter que ver com o facto de eis, vocábulo lusitano que corresponde a ecce, se grafar com hífen, quando antecede os chamados pronomes átonos: «eis-nos», «ei-los», «ei-la», «eis-me». Seja como for, em latim é sempre sem hífen, mesmo quando o respectivo advérbio antecede essas formas pronominais: ecce me.
Refira-se por último, para os menos avisados, que ecce homo (que se pode traduzir literalmente por «eis o homem» e livremente por «aqui está ele») são as palavras com que Pôncio Pilatos (São João, 19, 5, na tradução latina da Vulgata) mostrou aos judeus Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Empregam-se, por vezes de forma jocosa, para anunciar a chegada de alguém, sobretudo quando se trata de personagem (pretensamente) importante.
Não fica sobejo de dúvida: Ecce-Homo (com hífen) é erro grosseiro, pois sendo uma expressão latina, manda a regra que se deve escrever Ecce Homo, assim, sem hífen.
Como errare humanum est, resta a necessária e urgentíssima correcção, a bem deste adorado rincão, o nosso paraíso terrenho.
A placa que está errada e induz ao engano, como se viu, deve ser retirada de pronto e substituída por outra, para que seja reposta a verdade gramatical. Não podemos lavar as mãos como fez o procurador Pilatos e fingir que não é connosco.