
Lá nos idos da década de 1960, lembro-me do meu avô, António Inocêncio Alves, dotado de génio de mestre marceneiro afamado de lés-a-lés em inauditas proezas de lavrar a madeira, donde saiam obras que alumiavam todos de espanto, a transpor o limiar da Arte, um canto de sereia divino, com a autoridade dum pontífice.
Mal despontava a manhã, após o mata-bicho com um gole de café e um cibo de broa, vejo-o a escolher uma boa madeira, geralmente de freixo, choupo ou nogueira, de esmero com aquele tição no olhar, repleto duma sabedoria milenar.
Depois de cortado e escanhoado os toros, pegava da banca a rústica ferramenta, um inventário de palhetes, formões, goivas, maços de madeira, para à mão – abençoadas mãos – fazer o talhe da madeira, tacteando com carinho, seguindo um desenho que ele, magicando consigo, concebera originalmente, imaginação ardente.
Nascia assim a canga, utilizada nos carros de bois, que ele esculpia de forma distinta dos outros que tudo faziam a três pancadas. A canga, era nas suas mãos mais vistosa, dado o seu trabalho artístico e o seu tamanho em altura.
Por esse motivo, alegando que por serem altas e, como tal, batiam nas escorregadias ramadas mais baixas, muitos lavradores preferiam cangar os bois com os cangalhos, menos altos, com decoração paupérrima.
Depois havia aquela terminologia própria e as variadas partes componentes. Os “camalhões” eram as extremidades inferiores mais prolongadas, a “deitada”, a parte encurvada, ao meio, na porção inferior, ladeada pelos camalhões.
Na porção externa dos camalhões eram colocadas, de cada lado, as “piarças”, uma peça em forma de pequena cunha de madeira, de maneira a não permitir a desarticulação dos arcos da canga, geralmente causado pelo movimento bamboleante dos animais.
O corpo central da canga era esburacado por diversas tipos de “furas”. A “fura do tamoeiro” ficava ao centro da canga e foi perdendo funcionalidade, sendo reduzido sistematicamente o perímetro do seu buraco. A “fura ensogadoura” servia para passar as ensogas.
Para fazer a ligação da canga aos animais e ao carro de bois existiam diferentes elementos complementares. Assim, os “arcos”, feitos por madeira encurvada, envolviam o pescoço dos animais, sendo ligados à canga pelas ensogas.
As “ensogas”, duas encorpadas tiras de couro cingidas por um entrelaçado de faixas de couro, prendem as extremidades do arco à canga através das furas ensogadouras.
As “pertizelas”, umas varas de ferro com extremidade aguçada, fixavam o arco e a ensoga, entrando no arco através de dois orifícios, enquanto que a outra extremidade permitia a fixação das pertizelas às cangas, através de uma corrente ou tira de couro.
O “tamoeiro”, formado por duas consistentes tiras de couro, laçadas através das “furas do tamoeiro”, faz a junção da canga ao carro de bois, e sustenta o cabeçalho do carro.
A “chavelha de pôr”, um bordão cilíndrico, atravessa o cabeçalho e, servindo de travão ao tamoeiro, facilita a tarefa de puxar o carro de bois. Por sua vez a “chavelha de descanso”, vara de maior dimensão, facilita o fadário dos animais durante as paragens, bênção de descanso para os coitadinhos.
Depois de cear uma côdea e malga de caldo, pespegava no topo superior da canga, a enfeitar, uns tufos de crina animal, que dão um donairoso aspecto às “cangas de cabeleira”, como então ficam conhecidas.
Mas a arte viva e brilhante do artista está, simplesmente, nos ornamentos, na maior parte dos casos, uns meros “vazados”, inúmeros buracos que se fazem sem aplicação de facto, a esmerar. Até os passarinhos, que a tudo assistiam, cantavam com mais blandicioso chilreio.
Enquanto rezavam a eternidade de padre-nossos e ave-marias, adicionava pitada de ornatos vegetalistas, a simular umas silvas, e uma “cruz do meio”, esta com a finalidade de repelir o mau-olhado, abrenúncio. Quedava obra capaz de jungir qualquer senhor de Braga…, coruscando ao sol-pôr, entre chorrilhos de encómios. Salve! Salve!
O substantivo canga virá do céltico «cambica», «madeira curva», e daí para o latim «canica», onde entrou por glórias antigas nas línguas latino-românicas. Outros linguistas dizem, do alto da sua sapiência, que do adjectivo latino «canicus» (< «canis», «cão») e da sua forma feminina «canica», para descrever a peculiar cópula do casal canino, «colligatio canis cum femina», por causa da minudência desses animais ficarem agarrados, se formou, por analogia, o substantivo.
Seja como for, a palavra portuguesa está documentada em 1308: «… e que lhes descangava as casas das cangas, que sobre ellas jaziam, e que nom podia homẽ guarecer no herdamento».
Um dia diremos dos cangalhos, que se distinguem pela forma mais simplista. Por ora chega de canga, embora seja mais leve do que àquela que, à viva força e desde o tempo da Galileia, querem albardar no nosso manso cachaço, para regular esta servil e dócil autocracia, donde devemos chispar como o dianho foge da cruz.
