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PADORNELO

Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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27
Dez10

POESIA LAUDATÓRIA EM HONRA AO DEUS MENINO

    Nas eras de antanho as mães e as avós embalavam os seus enternecidos rebentos ao som de cantilenas, cujo rasto se perde no tempo, passadas de geração em geração, muitas delas até aos dias de hoje, embora disso já não dependa o salvatério da família.

 

    O tema é vasto, mas dado a quadra presente, de cariz singular, arrecado aqui meia dúzia de cantilenas laudatórias em honra ao Deus Menino a par de algumas cantigas de embalar, as quais bastas vezes se confundem, pelo menos na boca materna, para capacitar o crianço da inutilidade da resistência em dormir.

 

    A primeira, intitulada Beijai o Menino, era entoada numa vastíssima região do Norte do País, com particular incidência no Minho e em Trás-os-Montes, e da qual se conhecem algumas variantes, conforme roça a asa glacial do frio.

 

Beijai o Menino

 

Beijai o Menino,

Beijai-o agora;

Beijai o Menino

De Nossa Senhora.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Mas ai que portento,

Mas ai que alegria!

Nasceu o menino

Da Virgem Maria.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Filhos de homens ricos

Em berço doirado,

Só vós, meu Menino,

Em palhinhas deitado.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Em palhinhas deitado,

Em palhas aquecido,

Filho duma rosa

Dum cravo nascido.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Estava Maria

À beira do rio,

Lavando os paninhos

Do seu bento filho.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Maria lavava

José estendia,

Chorava o Menino

Com frio que tinha.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Calai meu Menino,

Calai meu amor!

As vossas verdades

Me matam com dor.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

Beijai o Menino

Beijai-o no pé,

Beijai o Menino

Que é de S. José.

 

Ó vinde pastores

Vinde a Belém,

A ver o Menino

Que a Senhora tem.

 

    Da terceira quadra existe esta versão:

Os filhos dos reis

Em berço doirado,

Só vós, meu Menino

Em palhas deitado!

 

    Da quinta quadra conheço esta variante:

Estava Maria

À borda do rio,

Lavando os paninhos

Do seu bento filhinho.

 

    A sétima quadra apresenta esta cambiante, conforme a latitude geográfica:

Calai-vos Menino,

Calai-vos Senhor!

Que vossas bagadas

Me cortam com dor.

 

    A seguinte canção de berço, de gosto poético popular e tonalidade mais prosaica, ouvia-se também em todo o Norte, e fazia concorrência de topo à chucha de estopa reforçada de uma colher de açúcar, a reparar o sono.

 

Ó meu Menino Jesus

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é da vossa cabeleira?

– Ficou-me lá no convento

Ao colo de uma freira.

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é da vossa camisinha?

– Ficou-me lá no monte

Debaixo duma lapinha.

 

Ó meu Menino Jesus,

Que é do vosso calçãozinho?

– Está em casa do alfaiate

Pra pregar o botãozinho.

 

    À falta de melhor, segue uma série de versos soltos com a mesma temática, em toadilha de encantar o Inverno, no pressuroso gesto de embalar, enquanto o cachopo a choutar na chupeta, a boca aberta na escâncara do riso.

 

Maria embala o Menino,

Com a mão e não com o pé;

Este Menino qu’embalas

É Jesus de Nazaré.

 

São José é carpinteiro,

Fez um bercinho doirado,

Para deitar o Menino

Debaixo do cortinado.

 

Ó meu amado Menino

Boquinha de marmelada,

Dai-me um bocadinho dela

Que minha mãe não tem nada.

 

Ó meu Menino Jesus

Meu lindo amor-perfeito,

Se tende frio, vinde cá

Chorai aqui no meu peito.

 

Ó meu amado Menino

Descalcinho pelo chão,

Metei os vossos pezinhos

Dentro do meu coração.

 

Eu hei-de dar ao Menino

Para a noite de Natal,

Camisinha de cambraia,

Botõezinhos de cristal.

 

Eu hei-de dar ao Menino

Uma fita p’ró chapéu,

Também ele me há-de dar

Um cantinho lá no Céu.

 

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