Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

NOTAS SOBRE O NATAL MINHOTO

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    Ao longo dos anos fui coligindo alguns apontamentos sobre diversos usos e costumes minhotos, entre os quais avultam umas notas sobre a quadra natalícia, colhidas de levante a poente a ouvir as gentes idosas das nossas aldeias, mas também com recurso a consulta bibliográfica, hoje passadas a pena.

                                                                         

    Em Paredes de Coura, mal entrava a aragem do Natal, os lavradores usavam os doze dias antecedentes para fazerem conjunturas sobre o estado do tempo no ano seguinte. Assim, o dia 13 de Dezembro representaria a meteorologia do mês de Janeiro, o dia 14 afigura Fevereiro, sendo o mês de Dezembro vindouro representado pelo próprio dia 24, o da consoada.

                                                                                     

    Na madrugada do dia 16 de Dezembro começava a Novena de Natal, como processo de purificação e preparação, com missas, ladainhas e cantos litúrgicos, rezando-se nove padre-nossos, nove ave-marias e nove glórias. Esta antiga prática religiosa originou a enfática expressão «semana dos nove dias».

                                                                            

    Por sua vez, José Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa, vol. VIII, 1982, p. 508) faz referência à Rezada do Alho, antiquíssimo costume da freguesia minhota de S. João de Rei, Póvoa de Lanhoso, rezada no adro da igreja, onde se distribuía uma malga de vinho, uma fatia de broa e alhos pelos presentes, por entre padres-nossos e ave-marias.

                                                                                       

    O presépio era, então, um costume muito radicado, ocupando lugar cimeiro no imaginário popular, no entusiasmo da criançada e na casa do lavrador, com montanhas verdejantes, plantas vicejantes, casinhas maviosas, cascatas cristalinas, esplêndidas fontes, gentis mulheres, laboriosos camponeses, diligentes trabalhadores, pastores, grutas acolhedoras, o cândido menino nas palhinhas bafejado pelo burro e a vaca, a Virgem Maria e o venerável S. José, por entre vultos bíblicos e antigos romanos, tais e tais. Tudo num ambiente bucólico e pueril, mistura tanto do divino como do profano, espectáculo de tamanha excelsitude.

                                                                             

    Na antevéspera, a 23 de Dezembro, a tradição alto-minhota exigia de lei a visita ao cemitério, romagem de saudade aos entes queridos falecidos, na crença que os nossos maiores, os antepassados, iriam estar em espírito na Consoada.

                                                                                                                            

    Para aquecer a noite gélida, um madeiro de carvalho era colocado na lareira. Diziam as santas avós, em sabedoria milenária, que o fumo e as cinzas do Canhoto de Natal tinham a miraculosa função de repelir as faíscas e trovoadas, uma espécie de pára-raios campestre, além de eficazes propriedades medicinais em certas doenças, devendo para tal arder da Consoada ao Dia do Ano Novo.

                                                                                     

    Noutras terras, como Padornelo (Paredes de Coura), guardava-se religiosamente uma acha do cepo queimado para ser lançado à lareira e queimado de novo em dia de grande trovoada ou temporal medonho, dadas as suas sobrenaturais virtudes contra as tempestades. Até onde chegar o fumo do “Canhoto de Natal” não tombaria raio nenhum no ano seguinte (Famalicão, Paredes de Coura).

                                                                             

    Em Vila Nova de Famalicão também a borralha da lareira da Consoada era usada para fins curativos na medicina popular. Os cascos das pinhas queimados na noite de Natal para extracção dos pinhões tinham, igualmente, propriedades de protecção contra os trovões, sendo guardados e novamente colocados ao lume em dias de borrasca (Famalicão, Barcelos)

                                                                                                 

    Nalgumas localidades do Baixo Minho mais raiano com Trás-os-Montes (Terra de Bouro, Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto), a rapaziada surripiava um cepo de carvalho ou azinheira para ser queimado no adro da igreja durante a noite de 24 para 25 de Dezembro, sem reprovação pública do proprietário a quem retiravam o tronco, que assim “fornecia” o madeiro para a fogueira. O “Canhoto de Natal” era transportado inteiro num carro de bois, em ambiente festivo e de grande algazarra, folia rude dos povos.

                                                                                                          

    Em Padornelo, freguesia do concelho de Paredes de Coura, ainda na década de 1960 fazia-se um delicioso arroz de polvo seco para a Ceia da Consoada, que sei ter sido usual e tradicional em Pias, a compor escolta ao obrigatório bacalhau. Aqui, nesta localidade de Monção, a parte da doçaria era composta por bolos de chila e tostas, designação que davam às rabanadas.

                                                                                

    Em Viana do Castelo, para fazer companha ao bacalhau e ao polvo estufado com torradas finas, guarnecia a mesa um terceiro prato de bolinhos de bacalhau com esparregado de nabiças, resguardado por arroz-doce, rabanadas antigas, bolinhos de jerimu ou abóbora-menina, mexidos de mel, terminando ao ceiote – ceia depois da meia-noite – com a sopa dourada de Natal. Tudo um manjar dos deuses.

                                                                                                             

    Embora o arroz-doce fosse elemento essencial da doçaria da Páscoa em muitas casas era, ainda, vulgar formar a modesta bateria de doces que vinha adoçar a mesa de Natal, iguaria de fazer rir os olhos, no resto do ano só havia cibo de broa.

                                                                       

    Os formigos são, por excelência, o doce natalício da região de Ribeira Lima, feitos com pão de trigo duro, que se esfarela para dentro dum pote ao lume, com água e mel, mexendo-se sempre. Quando a massa borbulhar, mostrar boa catadura e ficar mais consistente, juntava-se-lhe uvas passas, nozes e figos aos pedacinhos, fervendo depois mais uns minutos. Deve servir-se frio, sendo feito dois ou três dias antes da consoada e em grande quantidade, não era tempo de ser somítico de unhas rentes.

                                                                           

    Uns dos acepipes mais usados na mesa alto-minhota eram as bêbedas, fatias de pão trigo cortadas com um dedo de espessura, levemente torradas e mergulhadas numa calda de vinho, canela e açúcar ou mel. Noutras localidades, como em Padornelo (Paredes de Coura), ou em Riba de Mouro (Monção), as fatias ficavam a embeber, mergulhadas na dita calda de vinho, açúcar e canela, atoladas em gozo gastronómico.

                                                                              

    Os pinhões eram presença constante em qualquer mesa, festim ao lado do arroz-doce, as rabanadas minhotas – umas bêbedas em calda de vinho, mel e canela, outras fidalgas –, as fatias-de-paridas polvilhadas de açúcar, os figos, as uvas passas, as nozes e toda a casta de vitualhas. As pinhas estão lembradas nesta quadra maviosa de Viana do Castelo:

 

Nossa Senhora da Serra

Lá anda no pinheiral,

Apanhando pinha mansa

Para a noite de Natal.

                                                                                                

    Ao fim do serão, à volta do lume comia-se a sopa de vinho quente, adocicada com mel ou açúcar, dentro dum grande malga, entulhada com broa ou pão trigo a fazer a parte sólida. Era a única altura em que se comia sopa, pois o resto do ano somente o caldo vinha à mesa do lavrador.

                                                                                           

    Em São Lourenço da Montaria, freguesia do concelho de Viana do Castelo, a tradicional consoada com bacalhau, nabos e couves emparelhava ainda com a consoladora sopa de vinho quente com açúcar. Tudo de estalo e truz.

                                                                                          

    Por sua vez, em Monção, umas horas depois da ceia, a família comia a sopa de trigo, preparada num grande alguidar, com recurso a vinho verde tinto, açúcar e pão de trigo aos pedaços, de fazer estoirar o cós das calças.

 

Os filhos dos reis

Em berço doirado,

Só bós, meu menino

Em palhas deitado.

                                                                                    

    Em qualquer localidade do Alto Minho a mesa, com os seus restos alimentares, ficava posta na noite de 24 para 25 de Dezembro. Não podia ser levantada sob pretexto nenhum, para saciar as alminhas e os anjinhos, que vinham comer de noite, enquanto a famelga dormia. No Baixo Minho até se punha um talher suplementar para honrar a memória dos familiares já mortos, e, também, não se levantava a mesa da consoada a fim de servir o repasto às almas.

 

Natal ao domingo

Venderás os bois

E comprarás, trigo;

Natal à segunda-feira

Enche a eira.

                                                                              

    Em suma, a Consoada de Natal do distrito vianense, pese embora as variáveis, era composta por bacalhau cozido com batatas, ovos, cenouras e couve penca curtida pela geada, seguido de polvo estufado ou arroz de polvo meia-cura, rabanadas minhotas, rabanadas antigas, rabanadas fidalgas, formigos ou mexidos do Natal e pão-de-ló, numa mesa adornada por nozes, figos, passas, pinhões e avelãs, tudo bem regado com um odre do bom vinho. Após a “missa do galo”, o estômago era acalmado com a sopa de vinho quente, adoçada com mel ou açúcar e reforçada, nas casas mais abastadas, com um calistro de vinho fino (Porto, Madeira ou Moscatel).

 

Ó meu Menino Jesus

Que é da bossa cabeleira?

– Ficou-me lá no conbento

No colo de uma freira.

                                                                

    Enquanto o canhoto ardia na lareira, as mães e as mãezinhas – tratamento carinhoso para as avós – cantarolavam as seguintes quadras, com o mesmo fervor dos salmos do Rei David cantados no coro da Sé:

 

Donde vêm os Reis Magos?

Da parte do Oriente

A adorar o Deus menino

Que é Jesus omnipotente.

 

Foram a casa de Herodes

Por ser o melhor reinado,

Para saber o caminho

Onde Jesus era nado.

 

Herodes como malvado

Como profeta malino,

Às avessas ensinou

Aos Santos Reis o caminho.

 

A estrelinha os guiou

Para cima duma cabana,

O menino encontrou

Deitado numa choupana.

 

A cabana era pequena

Não cabiam todos três,

Mesmo assim adoraram

Cada um por sua vez.

 

Todos eles ofereceram

Oiro, mirra e incenso,

Ele nada precisava

Porque era já imenso.

                                                                            

    No entrementes entoavam esta cantiguinha popular de Natal, com o rapazio a fazer coro, ou a atrapalhar, conforme o sono do adiantado da hora e o monco de palmo, colhida inicialmente em Ponte de Lima:

                                                              

Ó que noite de lura

Ó que noite de alegria!

Caminhando vai José

Caminhado vai Maria.

 

Ambos vão para Belém

Mais de noite que de dia,

Quando chegaram a Belém

Já toda a gente dormia.

 

– Abri-nos essas portinhas

Porteiros da agonia.

– Vinde, vinde senhora

Até ser claro o dia.

 

S. José foi pelo lume

S. José que fazeria?

Já a Virgem tinha parido

Era agora novo dia.

 

Desceu um anjo à terra

Paninhos de oiro trazia,

Tornando a subir ao céu

Cantou uma Ave-Maria.

 

Pai Eterno lhe perguntou

Onde estava Maria,

Maria estava bem

O menino sorria.

                                                                        

    Até os aforismos populares fazem alusão directa, ao garantir-nos que «no dia de Natal, já o dia tem mais um saltinho de pardal», mas asseguram que «de Todos-os-Santos ao Natal é Inverno natural».

                                                    

    A noite de Natal marcava de modo determinante a vida das pessoas, pois acreditava-se nessa ocasião que se o luar fosse intenso o linho medraria imenso e a colheita seria boa. Ao invés, a noite escura prenunciava uma produção aziaga.

                                                                                          

    Também o alho recebe a protecção explícita da quadra festiva, como garante a sabedoria popular que costuma meditar à vontade nestas coisas (Minho, Beira e Trás-os-Montes):

 

Quem quiser bom alhal

Semeia-o pelo Natal.

                                                                               

    Nas horas que antecediam a “Missa do Galo”, à volta da lareira onde o “Canhoto de Natal” tinha a santa função de abrasar toda a noite, brincava-se ao rapa-tira-deixa e põe, um jogo de pinhões, enquanto os crescidos jogavam às cartas ou lembravam os familiares e as narrativas de arrepelar os cabelos.

                                                                  

    Noite cerrada, os sinos convocavam os fiéis para a Missa do Galo, ala que se fazia tarde para beijar a imagem do Menino Deus e uma mó de gente inspirada pelo Altíssimo a entoar, a carnadura retraçada pelo cieiro:

                         

Alegrem-se os céus e a terra

Cantemos com alegria,

Já nasceu o Deus Menino

Filho da Virgem Maria.

                                                                                                       

    Em geral eram rezadas três missas de Natal, a missa do galo (meia-noite de 24 para 25 de Dezembro), a designada missa da galinha – logo na manhã de 25 de Dezembro – e a missa ordinária na tarde deste último dia. Quem assistisse às três liturgias recebia a graça infinita de amparo celestial e mais indulgências do Céu contra maleitas e maus-olhados.

                                                                             

    A Santa Noite de Natal escorria beatitude, angra divina a ter dó na humanidade. Era a única do ano em que se podia andar em completo sossego na medonha escuridão, mesmo sem recurso ao santo anjo da guarda, aliviado do pavor das aparições das abantesmas, almas penadas, lobisomens ou coisas-más, conforme crença neste extraordinário prodígio nocturno arreigada em Paredes de Coura e Ponte da Barca.

                                                                                                  

    Na madrugada de 25 de Dezembro, no rescaldo da festança, o Menino Jesus descia pela chaminé para deixar os presentes no sapatinho. A miudagem espertava com as galinhas, mal rompia a alva da manhãzinha, e sem conter o coração aos saltos investia a lareira à cata das modestíssimas prendas em tempos de vacas magríssimas, cotejadas com o despesismo actual, contudo inegavelmente mais preciosas.

                                                                                        

    Naquela altura o desconforme Pai Natal não existia no imaginário do Minho, nem embocava chaminés adentro, nem tínhamos com ele atenção de lei e mesuras. Os presentes eram trazidos pelo Menino Jesus no dia 25 e nunca na véspera.

                                                                                                         

    Ao almoço – ou jantar como então se dizia naquele torrão de sossego – do dia 25 de Dezembro comia-se a roupa velha, uma delícia feita com o sobejo da lauta consoada. Para amanhar a janta da Ceia de Natal, matava-se um soberbo galo da capoeira, preparado com arroz de pica no chão e chouriço de reco cevado a castanhas, um pitéu que suspirava no estômago.

                                                                                

   O Natal era a festa da família, por excelência, que assistíamos de olhos esbugalhados. Época harmoniosa, sinal de mesa farta idêntica ao milagre de Caná, de molde a reconquistar as almas e o Reino de Sião a Satanás, de deslumbrante placidez supraterrestre, como se chovesse sobre todos o maná da fartura, para retemperar forças do corpo moído de pancada na canseira da labuta diária. Mais do tempo a vida era dor e provação, carecida de todo o conforto.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 13:31
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1 comentário:
De António Nunes a 26 de Dezembro de 2011 às 12:19
Caro amigo Jofre
Espero que tenha passado um Feliz Natal e que a saúde esteja boa. Há muito tempo, anos e anos talvez, que não tinha o prazer de ler as suas notas e apontamentos sobre a sua terra, os seus costumes e as suas gentes. Ao seu estilo tão íntimo e apaixonado. Perdemos o contacto depois de muitas vezes nos termos cruzado por esta via eteriana da Internet e, particularmente, dos blogues. Cá continuo com o meu blogue na Blogger, apesar de ter feito algumas tentativas aqui no sapo. Sou capaz de reavivar um dos blogues que cá tenho. Desejo-lhe a continuação de Boas Festas.
Com um abraço António Nunes

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