Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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Domingo, 8 de Abril de 2012

A PÁSCOA NO ALTO MINHO: Antigos Usos e Costumes

Por: Jofre de Lima Monteiro Alves

 

    A Páscoa representa para os cristãos a festa da Ressurreição de Jesus Cristo, embora já se encontre no Antigo Testamento diversas alusões aos ritos da Páscoa hebraica. Assim, a Igreja Católica recebeu a solenidade pascal a partir do judaísmo, dando-lhe, todavia, o significado da morte e ressurreição de Cristo.

 

 

    Durante os séculos estalaram diversas querelas entre a cristandade no que concerne à celebração da Páscoa, tanto na liturgia como nos cálculos astronómicos para estabelecer a data em questão. Por fim o I Concílio de Niceia, reunido como feitoria celestial, estabelece no ano de 325 a celebração no primeiro domingo depois da primeira lua cheia da Primavera, dentro do espaço temporal entre 22 de Março e 25 de Abril.

 

Quinta-feira de Endoenças,

Sexta-feira de Paixão,

Sábado de Aleluia,

Domingo da Ressurreição.

 

    A Quaresma é um tempo ritual de preparação para a Páscoa, cheio de jejum, abstinência e de grande tristeza protocolar. Nesse dorido ambiente e de penitência rigorosa, sentido em clima de desmedida religiosidade, as mulheres vestiam-se todas de negro e as moçoilas para arrefecer os ardores, por entre conselhos de prudência, evitavam as roupetas garridas, a fazer dó às mulas lazarentas.

 

    Os cânticos durante os trabalhos agrícolas eram liminarmente eliminados e os homens não podiam sequer assobiar, dizer palavrões ou contar larachas, cortando rente qualquer manifestação de blasfémia. Entrementes entoavam-se tão-somente salmos religiosos, exortações e lamentos. Tudo conforme a cartilha de orar, soluçar, ares de poucos amigos e setes olhos a mirar o casoto dos outros.

 

    Nas igrejas e capelas não se colocavam flores nos altares e os santos eram ocultados com tecidos roxos ou pretos por mor dos tormentos que Nosso Senhor padeceu. Como os sinos não podiam atroar os ares devido ao período defeso e respeito pelo luto, em algumas terras usavam umas matracas a convocar os fiéis para a liturgia, rituais e ofícios divinos.

 

Páscoas passadas, muitas criadas.

 

    Era, essencialmente, um tempo de silêncio e recolhimento colectivo, pois cantar, assobiar ou qualquer manifestação de alegria exterior assumia contornos de mortiço pecadilho. Para mostrar que a coisa era séria, punha-se uma pedra pesada em cima da salgadeira, encerrando-a até ao fim do período pascoal, pois era absolutamente proibido comer carnes e gorduras. Na sexta-feira não se podia fiar, coser, lavar ou estender roupa ou cozer pão, devido a uma série de catástrofes medonhas que ameaçava os desprevenidos ou mais ousados.

 

    Uma antiquíssima tradição da cultural popular, agora completamente erradicada a partir da década de cinquenta da centúria passada, consistia no ritual da Encomendação das Almas ou Botar das Alminhas, como se designava noutros tempos em todo Alto Minho. Um leigo, o botador das almas, subia a um ponto alto e central e, logo ao primeiro badalar das Trindades, enquanto dobravam os sinos, começava a rezar uma ladainha em tom melancólico, concluindo com um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pela salvação das alminhas do Purgatório.

 

Alerta, alerta, a bida é curta e a morte é certa.

 

 

    A liturgia envolvia a formalidade de dizer a doutrina, pois nessa ocasião todos os adolescentes e solteiros deviam comparecer perante o abade a fim de mostrarem que sabiam o catecismo de cor e salteado e todos os dogmas da doutrina cristã na ponta da língua. Ocorria então o cerimonial da desobriga para os adultos, confissão quaresmal e comunhão em doses maciças, a fim de purificar a alma da face tétrica dos pecados, perjúrios, latrocínio, intrigas, ódios e pragas proferidas boca fora em horas do Demo. Todos com ar pesaroso de lorpas condenados ao patíbulo, cabeça descoberta e barrete surrado nas mãos, sempre pela salvação da alma e a fugir da forquilha do mafarrico.

 

    Na noite de Quinta-Feira Santa fazia-se a Procissão dos Fogaréus ou Procissão do Senhor Ecce Homo, pelo menos desde o século XVII. Uma chusma de poviléu cumpria magistralmente papéis diversos, num cortejo com figuras alegóricas da Última Ceia, julgamento de Jesus, cantochão, farricocos, matracas, ruge-ruge, vestes de penitência, pés descalços, capuzes balandraus, cordas à cintura e os tais fogaréus, umas taças com pinhas a arder ou lanternas de fogo. Nalgumas localidades realizava-se na Sexta-Feira Santa a Procissão do Enterro do Senhor, perante uma multidão prosternada.

 

   Por sua vez, em Ponte de Lima, no Sábado de Aleluia procedia-se à Queima de Judas, personificado por um boneco de palha que, depois da encenação do julgamento e leitura do testamento de Judas Iscariotes, era passeado pelas ruas, enforcado e queimado por efeitos pirotécnicos logo após o repique da Aleluia. Sobrevivência dum antiquíssimo rito pagão, forma simbólica de exorcizar os males e vingança contra o culpado pelas penitências como autor da traição perpetrada a Jesus.

 

Páscoa alta, chumbo na malta.

 

    No concelho de Arcos de Valdevez fazia-se o Enterro do Bacalhau, tradição que remonta ao tempo da contra-reforma, no século XVI. Consistia num pitoresco cortejo fúnebre nocturno com três andores que percorriam as vielas da vila, entrecortado pela loquacidade de sermões pregados por coisas e loisas.

 

    O Compasso Pascal fazia a visita pelas ruelas do povoado e atalhos por onde certamente não andou Cristo, prolongando-se em paróquias de maior extensão até ao Domingo de Pascoela. Em eras de antanho, até ao boqueirão da década de 1920, competia ao reverendo pároco a alimentação dos elementos do compasso, mandando servir um lauto repasto antes da saída da cruz e uma ceia ao recolher.

 

 

    Antigamente o Compasso Pascal, o Dia da Cruz, encabeçado pelo sacerdote paramentado de chapéu de três-bicos, sotaina, sobrepeliz e estola, era acaudatado pelo mordomo da cruz, os moços da caldeira, da campainha e das esmolas, os homens de opas que recolhiam o folar do abade e as pessoas mais santóginhas da paróquia, acompanhados por alguns tocadores de bombos, sacabuxas e charamelas, arautos ruidosos, sem andar a sarramancar os pés.

 

Páscoa em Março, ano de mortaço.

 

    Porém, as casas que abriam a porta à cruz eram preparadas de antemão. Limpeza geral para aliviar o sarranho, profusão de adornos de flores e motivos vegetalistas à entrada, ervas odoríferas espalhadas na cozinha ou sala fadada à visita, cheirosas malvas e alecrins, no fito de atenuar os odores incómodos do sarro e do cortelho do gado.

 

    Botavam nas camas as melhores colchas, as lindíssimas toalhas de linho saiam airosas das arcas onde recolhiam o ano inteiro. O caminho alcatifado com giestas, urzes e ramos, um tapete verde que ligava umas casas às outras, pedia vénia aos jardins da Babilónia, mesmo em dia de molha-tolos.

 

    Após a saudação tradicional e sucintas cortesias, o mordomo dava o crucifixo a beijar aos presentes ajoelhados e contritos, em respeito da primazia hierárquica secularmente estabelecida a partir da ilharga do dono da casa. Todos com o fato de ver a Deus, por cima das ceroilas de estopa, beijavam a cruz com gravidade.

 

    Logo de seguida, a comandita aboletava-se com uma refeição ligeira ou merenda mais ou menos suculenta conforme abastança do proprietário, adoçado com biscoitos e beberete de cálices de vinho fino. A hospitalidade tinha de ser conforme.

 

A festa do Natal é em casa, a da Páscoa na praça, a do Espírito Santo no campo.

 

    Alguns homens equipados de cestos e sacas recolhiam o folar do abade para o bornal, constituído por pão-de-ló, ovos, pitas pedreses, granizés, açúcar, milho, batatas e demais vitualhas de acordo aos usos e costumes e posses de cada um. Esta prática arcaica como as rendas de são-miguel também desapareceu de todo e foi substituído, por imposição dos padres, por um sobrescrito com dinheiro depositado em cima duma salva de prata ou baixela de estanho.

 

    Nos lares enlutados pela morte recente dum ente querido a cerimónia era limitado a um responso rezado pelo pároco, ao qual assistiam tão-só os familiares, sem a presença da comitiva pascal, a pôr-se de banda como se nada fosse e receio dos espectros.

 

 

    No concelho de Paredes de Coura, ainda no auge da centúria de oitocentos perdurava uma original tradição em torno da Capela do Senhor do Amparo, onde se reuniam os vizinhos párocos de Linhares e de Ferreira, e ali cada um botava a beijar a cruz aos presentes, e tupa que tupa de rota batida cada qual rumo à respectiva freguesia. Na Ribeira Minho, os párocos de Cristelo Covo, de Valença, e de Sobrado, na Galiza, atravessam o rio Minho de barco para dar de beijar a cruz na margem inversa a fim de cumprirem a tradição transfronteiriça do Lanço da Cruz, uma genuína romaria luso-galaica.

 

Quando a Páscoa cai em Março, ou muita fome ou mortaço.

 

   O almoço pascal topava mesa farta como o milagre de Caná e digno manjar dos deuses. Sacrificava-se um velho galo, devidamente assado e guarnecido por saboroso arroz de miúdos fazia escolta a um suculento caldo de toucinho, numa cama de feijão, massa e rodelas de pão-trigo ou broa, a fartecer o estômago, verdadeiro pitéu dos anjos em dia de azul diáfano.

 

 

    Noutras terrinhas alto-minhotas, como Monção, cozinhavam o carneiro assado no forno, por cima dum alguidar de arroz colorido com açafrão e temperado com as águas da cozedura das carnes de porco, vaca e galinha da melhor raça.

 

    A pitança exigia a presença usual do pão-de-ló, doce como o raio de sol estival, a quem os minhotos chamavam pão-leve, bate ou bolinhol, tal como diz a cantigueta:

 

Bate padeirinha,

Bate o pão-de-ló;

Duma banda tu,

Doutra banda eu só.

 

    Guarnecia a sobremesa mais algumas iguarias de quatro assobios, como as regueifas de pão-podre, o arroz-doce, bolos brancos, roscas e amêndoas. A festança estendia-se também à criançada extasiada e olhos arregalados, a quem os padrinhos de baptismo cobriam de mimos, roscas de pendurar ao pescoço e ovos pintados. Doces em farta até fazerem dores de barriga pelos verdes anos e ainda alguns tostões para a afidalgar a algibeira.

 

 

   O ritual do Ovo da Páscoa simboliza o embrião da vida e do mundo, o qual era tingido de castanho por efeito da casca de cebola e integrava também os bolos folares que se distribuíam como cerimonial de oferenda aos familiares e amigos do peito. Em Viana do Castelo costumava-se rabiscar a casca do ovo pintado de molde a desenhar cruzes, corações, flores e arabescos.

 

    Terminada a quadra pascal, lá voltava o minhoto à labuta de atamancar a vidinha, longe de afagos, ano após ano em altibaixos. E mais não digo, pois artigo tamanho é capaz de aborrecer um santo em dias prósperos.

Imagem do Senhor dos Passos, na Capela do Senhor Ecce Homo, nos Tojais, lugar da freguesia de Padornelo, oferta do benemérito José Narciso Monteiro. O artigo descreve o ritual e tradições da Páscoa em eras de antanho no Alto Minho, em especial nos concelhos de Arcos de Valdevez, Monção, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Valença e Viana do Castelo.

 

publicado por Jofre de Lima Monteiro Alves às 09:00
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