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PADORNELO

Blogue acerca da terra, das pessoas, dos costumes e da História de PADORNELO, freguesia do concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, publicado por JOFRE DE LIMA MONTEIRO ALVES.

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05
Jan07

QUIM SÁ, COURENSE, VICE-CAMPEÃO DO MUNDO EM VETERANOS

“Espero nunca deixar o atletismo”

 

Joaquim Sá, 58 anos, praticante de atletismo desde os 34, vivia ainda em França, onde esteve emigrado de 1971 a 1985. O atletismo foi somente a terceira modalidade que experimentou, já depois de ter colocado à prova as suas capacidades no futebol e no ciclismo.

 

Foi neste desporto, efectivamente, que se apercebeu da extraordinária condição atlética que o caracterizava. Pena tê-la descoberto tão tarde porque “dava um grande atleta: com os tempos que ainda faço com esta idade, por exemplo à meia maratona; o que não teria feito se tenho começado mais cedo, era para bater recordes, seria outro Carlos Lopes”.

 

Quando à paixão pela prática desportiva juntamos a aventura, a vontade e o estoicismo de desafiar os limites do corpo e transcendê-los; chegamos ao reduto predilecto deste nosso interlocutor, capaz de correr ultra-maratonas (provas de 100 Kms) por esse mundo fora e de entrar na Volta ao Minho (407 Kms) em atletismo por etapas, em nove dias consecutivos.

 

Ao todo, são mais de 50 meias maratonas, 25 maratonas e 3 ultra-maratonas!


Para se compreender melhor o nível deste enorme atleta, realce-se o facto de não ter, actualmente, no seu escalão (veteranos 4, dos 55 aos 60 anos), mais ninguém, em Portugal, que lhe faça frente, tendo-o provado na Meia Maratona de Lisboa, em Abril último, em cima da ponte 25 de Abril, frente a 283 jovens do seu campeonato.

 

Aos 51 anos, em França (Nantes), tornou-se internacional português, ao representar a Selecção Nacional na Taça do Mundo da Ultra Maratona.

 

Para além de ter contribuído para a honrosa classificação obtida pela Selecção, sagrou-se Vice-Campeão Mundial do escalão (Veteranos 2), apenas atrás de um inglês. Muito naturalmente que conserva, orgulhosamente, o equipamento que envergou em 1999, em terras gaulesas.


É incrível a forma do Joaquim Sá, aos 58 anos! Qual o segredo?


Tanto no ciclismo como nos seis anos em que pratiquei atletismo em França (nos últimos três anos que lá estive integrei uma equipa federada e comecei a fazer provas nacionais na categoria de pré-veteranos), as vitórias raramente me fugiam e bati seis recordes do clube por onde passei.


Mantenho esta forma e este ritmo porque treino habitualmente com dois atletas bastante mais novos. Tenho uma passada muito semelhante à do Luís Sá. Vamos sempre ao mesmo ritmo, seja plano, a subir ou a descer. Colo a eles e aguento mesmo quando se anda mais rápido.


Como fundista, os meus fortes são a resistência e o facto de correr com cabeça, mantendo sempre o meu ritmo e sabendo até onde quero e posso chegar.


Até quando quer manter este andamento?


Antes de responder a essa pergunta gostava de dizer que, aos 58 anos, estou a fazer 1.18H à meia maratona, uma marca melhor do que fazia há 10/15 anos e não muito distante do meu recorde pessoal (1.11H), atingido no Vimioso. Este ano
[de 2006] já fiz cinco meias. Ganhei-as todas no meu escalão.

 

Há não muito tempo atrás treinava apenas três vezes por semana e, mais tarde, tive um acidente de trabalho em Espanha que me afastou do atletismo durante dois anos. Quando recomecei, passei a treinar diariamente e dentro em breve (daqui a um ano atinjo a reforma), espero intensificar o ritmo da preparação, passando para treinos bi-diários.

 

Se continuar com saúde, espero manter este nível até aos 65. Depois, darei menor importância à questão competitiva, mas espero nunca parar.


Tem coleccionado vitórias em 2006…


Na Meia Maratona de Lisboa, por virtude de um atraso no envio da minha inscrição da parte do clube de que na altura ainda fazia parte (Alzira Lário), colocaram-me a partir muito atrás daqueles que eram os meus competidores directos, quase sem espaço para poder aquecer, ao passo que os outros, que tinham solicitado o cartão VIP a tempo e horas, tiveram 40 minutos a aquecer.

 

Para os apanhar tive que fazer o primeiro quilómetro em 3.07 minutos! Em 37 mil participantes, acabei nos cem primeiros. Mas tive outras vitórias de que gostei igualmente: meias de Matosinhos e de Goián (Espanha); os 15 Km do S. João (Porto) e Maratona do Baixo Miño (Tui), na qual ganhei a minha categoria com 12 minutos de avanço e fui 9.º da geral, com 2.55H, o que para mim é fantástico, ainda para mais com o temporal que estava.


Mas o Joaquim tem outras histórias muito interessantes destes quase 25 anos de carreira. Quer contar-nos algumas delas?


Antes de vir de França, entrei numa prova de 100 Km na Suiça (morava em Besançon, a 8 Km da fronteira entre a França e aquele país). Para além de ser de noite, era extremamente montanhosa. Corríamos com uma luz na mão.

 

Lembro-me que em certos locais, tinha três carreiros à minha frente e tinha que esperar que passasse alguém para me mostrar por onde era o caminho. Era já a 25.ª edição do evento.

 

Acabei com pouco mais de 9 horas. Pouco atrás de mim cortou a meta um senhor de 94 anos, que recebeu um medalhão de ouro pelo facto de ter feito todas as provas desde a 1.ª edição. Recebia esse medalhão de ouro a cada cinco anos.


Mais tarde, em 1999, em Madrid, entrei noutra ultra-maratona com o objectivo de preparar a Taça do Mundo da mesma distância. Desisti aos 90 Km quando era 8.º. Desde os 80 Km que me vinha a debater com muitas dores no pé… queria acabar, mas não deu! Chorei com o desespero!

 

Foi a única desistência em toda a minha carreira. Quando tirei a meia, tinha a unha grande do pé cheia de sangue! Não desisto porque nunca acabo uma prova a dizer que não aguentava mais, nunca esforço ao máximo, mesmo que vá em 2.º. Sou capaz de gerir bem o esforço.


Três semanas depois, em Nantes, corri a Taça do Mundo de Ultra-Maratona. Em treinos anteriores em Porriño, fomos acompanhados por um médico espanhol. Pelo controlo ao sangue que me foi feito, foi indicado ao treinador que seria atleta para fazer 8H a 8.15H, o que já seria um tempo espectacular.

 

Na altura, tinha 51 anos (a partir dos 50 passa-se a veteranos 3) e o último escalão competitivo era o de veteranos 2, ou seja, quem tivesse mais de 50 anos, competia num escalão (em termos da classificação individual) em que os adversários eram bastante mais novos.

 

Para a classificação colectiva, a Selecção Nacional fechava com os três primeiros e era altamente improvável que eu lá ficasse. A verdade é que o nosso melhor atleta desistiu aos 60 Km e eu, aos 85 ultrapassei um colega (o Luís Loureiro), que terá hoje cerca de 40 anos.

 

Passou por mim aos 75 e disse-me: “vamos velhinho”. Quando passei por ele, 10 Km depois, só lhe disse “vamos Loureiro!”, ao que ele respondeu: “vai tu velhinho que eu já não posso”. Terminei a prova com 7.50H, fechei a classificação da equipa e o tal Loureiro chegou à meta 34 minutos depois.

 

No fim, enquanto os meus colegas aterraram na cama que nem tordos, fui com o treinador à cerimónia de entrega de troféus e aí soube que tinha sido 2.º no meu escalão. Mais tarde, no avião (foi a única vez que representei a Selecção e andei de avião), o treinador, Alberto Lário, disse que o único que tinha corrido a prova com cabeça tinha sido o Quim Sá.


Também já fiz uma Volta ao Minho em Atletismo, no início dos anos 90, composta por 407 Km, 16 etapas, 9 dias. Uma das etapas acabou em Coura. Foi uma prova muito dura, dos estreantes desse ano fui o único que, contra todas as expectativas, acabou a prova.


Gostava de terminar deixando um agradecimento ao patrocínio conferido pelas casas comerciais e ao Município de Paredes de Coura que muito me tem apoiado através da Associação de Padornelo. A todos se deve a minha ida a muitas provas que, caso contrário, não teria sido possível participar.

 

José Miguel Nogueira

 

Jornal NOTÍCIAS DE COURA, página 31, edição n.º 85, de 26 de Dezembro de 2006

 

http://www.noticiasdecoura.com/index.php?pag=noticia_detalhes&recordID=1590

 

 

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