Uma Carta do Dr. António Cândido Nogueira ao Padre Casimiro - III
Publica-se hoje a terceira e última carta que o dr. António Cândido Nogueira escreveu ao padre Casimiro Rodrigues de Sá, abade de Padornelo, quando este se encontrava em França como capelão militar voluntário do Corpo Expedicionário Português.
A segunda carta foi publicada no blogue COURA: magazine – HISTÓRIA, que pode ser consultada no seguinte endereço Internet: couranahistoria.blogs.sapo.pt.
Meu Ex.mo e Prezado Amigo:
O abade de Paredes[1] a quem li a carta de V.ª Ex.ª na parte em que lhe diz respeito, mostra-se animado a continuar a paroquiar a freguesia de Padornelo até que V. ª Ex.ª regresse, quando tiver de regressar, sem ser preciso abreviar a sua vinda. Ele agora acha-se um pouco melhor da vista.
Vejo que V.ª Ex.ª tem lido os jornais do Porto e Lisboa e por eles deve estar ao fato (sic) do que se tem passado relativamente à aventura monárquica[2]. Cá no Alto Minho, a não ser a morte que se deu nos Arcos, de um indivíduo que ali chegou de automóvel no dia em que o movimento republicano já tinha vingado no Porto, e que, segundo se diz não quis obedecer à intimação que lhe fizeram os trauliteiros que, naquela ocasião, ainda ignoravam que a república já estava reimplantada e … fogo.
O que morreu dizem que era de Braga e os que fizeram fogo, que já se acham presos, ignoro-lhes o nome.
Aqui, como lhe disse, não houve prisões e até agora afastamentos ou demissões. Verdade seja que também lhes não demos motivos para isso porque a restauração monárquica passou quasi despercebida. Apenas os Ribas[3] deram um tiro de Penedo, lá para a Cotaleira, ao que os republicanos – José Ribeiro[4] e Manuel Cândido[5] – pagaram na mesma moeda indo aos mesmos buracos e aos mesmos penedos soltar outros tantos tiros. De resto não houve manifestações dignas de menção.
O administrador da monarquia foi meu irmão José[6] não por nomeação mas em virtude do seu cargo de Presidente da Câmara.
Actualmente é administrador do concelho o Ribeiro da Silva[7] (Manuel Tomás) que aqui se acha a ares. As eleições como já deve ter visto, foram adiadas para Junho ou Julho (não sei bem) e naturalmente ainda sofrem novo adiamento. Eu estou convencido de que neste país não torna a haver socego (sic) nem com republicanos nem com monárquicos. Já se fala em nova revolução! Que maldição cairia sobre nós?! Eu, no lugar de V.ª Ex.ª havia de fazer por me conservar lá por fora o mais que pudesse, por que neste país não se pode viver!
Minha mulher envia-lhe muitas lembranças bem como os petizes. Em sua casa tudo bem. Abraça-o o de V.ª Ex.ª amigo e afectuoso
António Nogueira
29-3-1919
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[1] Reverendo José Bento Ribeiro (1862+1932), natural de Padornelo, foi cura de Cristelo, abade da igreja matriz de Santa Maria de Paredes de Coura, presidente da Junta de Paróquia de Paredes de Coura, pároco interino de Padornelo, tesoureiro e prior da Real Confraria do Espírito Santo, provedor da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Paredes de Coura, vereador municipal, presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Paredes de Coura, pároco da igreja de Resende, etc.
[2] Refere-se à chamada Monarquia do Norte, que esteve vigente em Janeiro e Fevereiro de 1919.
[3] Refere-se a Domingos Gusmão da Cunha Ribas, comerciante, e antigo dirigente local do extinto Partido Progressista, administrador do concelho e vereador municipal.
[4] José de Oliveira Ribeiro, natural da vila de Paredes de Coura, comerciante e vereador municipal, era sobrinho do abade José Bento Ribeiro.
[5] Manuel Cândido Gonçalves Pereira (1886+1939), natural da vila de Paredes de Coura, foi comerciante, vogal da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Paredes de Coura, tesoureiro municipal, vogal da Junta de Freguesia de Paredes de Coura, fundador e 1.º comandante da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Paredes de Coura.
[6] Dr. José Maria Nogueira, natural de Mozelos, filho do Visconde de Mozelos, foi bacharel formado em Direito, presidente da Câmara Municipal por diversas vezes, administrador do concelho e abastado proprietário.
[7] Dr. Manuel Tomás Ribeiro da Silva, natural de Vila Mou, concelho de Viana do Castelo, era presbítero, foi efémero administrador do concelho de Paredes de Coura.
